Quando a verdade não produz mais efeito

O propósito que motivou a organização e estabelecimento da Igreja Adventista do Sétimo Dia, muitas décadas atrás, tem uma caraterística impressionante: quanto mais tempo passa, mais pertinente, atual e urgente se torna. Isto não é uma mera justificação para argumentar contra aqueles que nos acusam de fazermos parte de um movimento que anuncia a iminência do fim do mundo… há mais de século e meio!

Pelo contrário, é algo que está inerente à função que esta Igreja acredita ter, e isso acontece desde o seu início, não é novidade alguma que a dado momento tenha sido introduzida. Daqui vem que devemos constantemente rebuscar e fortalecer esse traço de identidade, diria mesmo razão de existir. E ao fazê-lo, corremos o bom risco de sermos confrontados com um cadernos de encargos que, embora possa por vezes não ser o mais simpático e agradável, corresponde sempre à ordem Daquele que até aqui nos trouxe.

Que “a nossa igreja é chamada a proclamar a verdade” é uma frase que merecerá todo o apoio entre nós. Mas, no âmbito global daquilo que é essa “verdade” que somos indigitados a anunciar, podemos encontrar diferentes áreas, vários campos de ação, cada qual com os seus próprios aspetos, uns tidos por mais fáceis de concretizar do que outros. E se alguns deles nos distinguem clara e demarcadamente, outros há que podem provocar que nos confundam, mais do que aproximem as pessoas de nós!

Veja a verdade que é o trabalho social da Igreja. Não há dúvidas do mérito e importância desse ramo; milhares de obreiros ocupam fielmente o seu lugar neste campo, exercendo no máximo das suas forças e dedicação.

Contudo, devemos assumir que não é isto que é intrinsecamente adventista; neste aspeto específico, os nossos amigos católicos estão muito à frente. Por isso, podemos com sinceridade dizer que se alguém é membro da Igreja Adventista apenas devido à nossa ação social, bem faria em mudar-se para a Igreja de Roma, pois ali se sentiria muito mais realizado…

Mesmo quando falamos de assuntos essencialmente bíblicos, podemos enaltecer a verdade de que Deus é o Criador dos céus e da terra, que Ele é a fonte de todas as bênçãos. Também podemos, com e em verdade, pregar que Deus é amor e busca todos com o objetivo de os salvar, redimir para o lar eterno. E, tudo isto são verdades indisputadas à luz das Escrituras.

Contudo, e na mesma postura de sinceridade, poderíamos agora dizer que se alguém é membro da Igreja Adventista apenas por esta pregação, também estaria igualmente bem numa qualquer igreja do espetro evangélico, ou até mesmo na citada Igreja Católica… Ou seja, não é por aqui que marcamos a diferença!

Nestes dois exemplos, somos porventura mais “iguais” do que “distintos“.

Para dizer que a tarefa específica que nos foi entregue e o legado deixado pelos nossos pais fundadores é uma distinta e demarcada mensagem que, embora encontrando pontos em comum com outras denominações, só produz o verdadeiro efeito que se pretende quando se centra na mais pura e dura essência do Adventismo do Sétimo Dia, quando vai um passo mais além do que já existe!

O problema está (para alguns…) em que isso obriga, forçosamente, a usar uma mensagem de rutura, talvez em alguns casos mesmo de choque, que alguns entendem como confronto, que, eventualmente, coloque em causa consensos que, embora desejáveis, não podem ser mais valorizados do que a missão única que esta Igreja tem. Mas, se não o fizermos, as pessoas continuarão na mesma, sem razões para sequer pensarem em decidir por esta verdade.

É por isso que é relativamente fácil falar do amor de Deus, proclamá-lo como Criador, até mesmo, simplesmente, como existindo. Mas isso só fará diferença real, de mudança, numa pequena parcela de pessoas. A maioria continuará a entender que não há razões suficientes para se juntar à Igreja adventista, pois se for só isso, vê que as diferenças não são assim tão grandes.

Agora, pense: falemos abundante e concretamente da nossa mensagem do Sábado do sétimo dia; falemos da nossa interpretação de Apocalipse 13; e, falemos do estado dos mortos – logo verá o impacto que isso provocará: externamente, poderá haver o tal choque, escândalo ou por outro lado espanto, fascínio e grande interesse; internamente, haverá por certo renovação de consagração ou também vozes críticas em oposição.

Ou seja, nada ficará como dantes – tal e qual quando Jesus entrava em ação, a palavra indiferença deixava de ter lugar. O proclamar da nossa mensagem distinta e específica como ela sempre foi, por muito que isso pareça inconveniente seja para quem for, é o que consubstancia com propósito a nossa razão de existir, a razão maior e relevante para a nossa formação e o nosso exercício missionário.

Repare que isto em nada desvaloriza os pontos importantes da nossa doutrina que partilhamos ou em que nos aproximamos no entendimento com outras denominações; mas quando nos ficamos só por aí, algo está mal, muito mal na nossa visão, porque deixamos de produzir o grande efeito que devemos e para o qual fomos chamados.

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