Estamos a criar um “ecumenismo adventista”?

A pergunta pode parecer estranha, principalmente para quem é minimamente conhecedor do que falamos quando usamos a palavra “ecumenismo” – normalmente associado a algo fomentado principalmente pela Igreja Católica Romana, cada vez mais bem recebido pelo mundo cristão, mas geralmente olhado com muita reserva ou mesmo desdém pela tradicional visão Adventista, pode, à primeira vista, espantar a maioria de nós termos de associar esse termo ao Adventismo.

A minha leitura é que, mesmo sem darmos conta ou nos apercebermos, corremos o risco de estarmos a criar, entre portas, um ecumenismo à medida das nossas dificuldades, diria mesmo divergências.

Mas vamos por partes – o que é ecumenismo? No sentido mais restrito, refere-se aos esforços em favor da unidade entre as diferentes Igrejas cristãs; no sentido lato, pode designar a busca da unidade entre todas as religiões; na essência, é um processo que procura obter unidade. Na prática, o ecumenismo tem sido uma ferramenta magistralmente usada pela Igreja de Roma a fim de recuperar para o seu seio as diferentes religiões protestantes que surgiram na sequência da reforma de há cinco séculos. Convenientemente, outros cristãos, como ortodoxos e anglicanos, também têm mostrado grande aceitação desta proposta de aproximação, diríamos melhor união.

Alguém poderá perguntar: mas como pode uma religião protestante unir-se a Roma? Vamos passar a venerar Maria e os santos? Vamos confessar-nos aos padres, até mesmo aos nossos Pastores? Vamos aceitar a infalibilidade papal? Isso parece impossível de acontecer! Paralelamente, ainda mais absurdo seria perguntar: Roma vai abdicar da veneração a Maria e aos santos, da confissão aos padres e da infalibilidade papal?! Nem o mais arrojado dos reformadores imaginaria tal cenário…

E não imaginaria porque isso não se vai concretizar, nem tal será preciso, como não será preciso os protestantes aceitarem tudo o que vem de Roma – a estratégia que tem sustentado todas as partes durante este processo assenta num princípio formulado de forma tão inteligente quanto comprometedora: vamos concentrar-nos no que nos é comum, esquecendo, colocando de lado o que nos divide. Não vamos dedicar tempo agora a debater todas as implicações que daqui surgem; apenas estabelecemos as bases, traçamos o perfil resumido do que é o ecumenismo.

Ora, recuperando o objetivo central deste raciocínio, como podemos, então, entender a eventual existência de um “ecumenismo adventista”? Simplesmente, em meio ao que nos divide como povo – que pode ir dos comportamentos à própria crença (sim, desgraçadamente já estamos a chegar a esse ponto!) – parece notar-se uma tendência para escolher a paz podre que constitui ignorar, fazer de conta que não existem divergências, algo que nos separa e muitas vezes opõe, mas antes dedicarmos toda a nossa atenção ao que nos é comum, consensual.

Parece mal este procedimento? Ainda que à primeira vista pareça estabelecer a construção de entendimentos, os perigos daí decorrentes são enormes. A verdade é que, mesmo que não o queiramos admitir, há divergências que se notam entre nós que implicam fidelidade e consagração.

Quer exemplos práticos? Veja o debate que (infelizmente, ainda) existe entre nós sobre vestuário, alimentação, música, cinema, entretenimento, etc., com tantas posições divergentes que alguém já me desabafou que serão provavelmente questões “eternas” que jamais resolveremos.

Pois bem, repare como uma proposta “estilo ecuménico” aparentemente resolve o problema: não falemos disso, não dediquemos o nosso tempo a essas questões que nos afastam, mas vamos concentrar-nos naquilo em que estamos de acordo e não provoca divisões, como “Jesus é o nosso Salvador” e “tudo o que precisamos é o amor de Jesus. E se queremos encerrar de vez estes assuntos mais difíceis de lidar, resumiremos tudo numa sentença proferida no estilo pilatesco de lavar as mãos: “isso não é o mais importante, há coisas mais relevantes a tratar”…

Confessemos que isto até dá um certo conforto: é melhor criarmos um ambiente de paz e serenidade (ainda que falso) onde não há discussões nem vozes dissonantes, do que sermos incomodados com a obrigatoriedade moral de termos de assumir frontalmente uma posição e defendê-la perante ataques que surgem muitas vezes de onde menos esperamos, incluindo e principalmente de dentro.

A verdade é que já demonstramos ser bem mais cómodo ficar quietinhos e dizer “ámen” a tudo o que passa à nossa frente, do que levantar a mão para dizer “isso está errado”, correndo o risco de ser logo catalogado como perturbador de Israel. Mas negligenciar esta responsabilidade é varrer o incómodo para debaixo do tapete quando o deveríamos era limpar. Resumindo: não se resolve a questão, apenas a ignoramos, a afastamos de vista.

Isto não é novo. Numa das mais sagradas ocasiões do Antigo Testamento, Moisés foi chamado ao monte para receber as tábuas onde Deus tinha escrito os Seus Dez Mandamentos. Na ausência e demora de Moisés, alguns do povo entenderam por bem construir um ídolo e organizarem uma cerimónia de adoração a esse objeto.

Ora, o que fez Arão, o máximo responsável na ausência de Moisés? Em vez de se assumir e declarar positivamente que aquilo estava errado e não deveria acontecer, optou por “não criar problemas”, por “não acusar os irmãos”, por “não fazer escândalo”… Ou seja, não quis lidar de frente com o que os separava, para não criar discussões, desavenças e divisões na igreja.

À semelhança de muitos de nós hoje, Arão teve um ato vacilante de cobardia e fraqueza que Ellen White descreve assim:

“Arão temia pela sua própria segurança; e, em vez de manter-se nobremente pela honra de Deus, rendeu-se às exigências da multidão” (Patriarcas e Profetas, p. 317).

Estou convencido que se isto se tivesse passado hoje, na nossa igreja, muitos elogiariam Arão por não ser “daqueles que está sempre a apontar o erro, com a espada na mão…”. De tal forma, Arão mais não fez do que unir-se na corrupção, quando se deveria ter demarcado, dissessem o que dissessem dele.

Mas, perguntamos: não disse Jesus que os Seus seguidores deveriam ser unidos como um só? Sim, disse e certamente que o mantém até hoje. Mas jamais Ele disse que essa união deveria ser conseguida sacrificando a verdade e os princípios e valores que a fundamentam. É preferível ser acusado de divisionista do que ceder e curvar-se perante os bezerros de ouro que temos construído e levantado entre nós, mesmo que isso evite conflitos entre nós.

Por isso, Ellen White conclui acerca da igreja de hoje:

“Ainda há Arãos flexíveis, que ao mesmo tempo em que mantêm posições de autoridade na igreja, cederão aos desejos dos que não são consagrados, e assim os induzirão ao pecado.” (idem)

Unidos como corpo, como igreja, como movimento missionário? Sim, certamente que sim. A qualquer preço, mesmo interno? Não, certamente que não.

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