O que fizemos à verdade presente?

A “verdade presente” é, por definição, tudo quanto está ligado ao ministério que Jesus está a fazer num determinado momento. Logo, atualmente, é olhando para o lugar santíssimo do santuário celestial, onde Jesus está desde 1844, que percebemos como podemos conhecer qual seja a “verdade presente” para este tempo – Jesus fazendo a última intercessão por uma raça caída, enquanto os Seus servos proclamam por toda a parte a urgente mensagem da salvação e renúncia ao erro que habilitará cada um a estar de pé perante o Senhor.

Contudo, basta um simples exercício de memória para percebermos que a maior parte do nosso tempo útil – até na igreja e durante o sermão do Culto de Adoração de Sábado – não tem sido ocupada por este assunto e relacionados. Não é bem este o tema que maioritariamente ocupa os nossos fóruns, conversas, pregações, partilhas e testemunhos.

Somos muitos versáteis e prolíferos opinadores numa variedade de temas, principalmente aqueles que são mais confortáveis de gerir e não implicam muito arrojo, mas somos estranhamente ausentes e omissos quanto ao que é mais nuclear à existência do Adventismo do Sétimo Dia.

Para muitos, “verdade presente” soa a um profundo conceito teológico só entendido e possivelmente explicado pelos eruditos na matéria, algo distante que, embora não saibamos explicar nem sequer em traços gerais, sabemos que existe, aceitamos, mas deixamos totalmente por conta de outros, aqueles que pensamos terem a responsabilidade de tratar disso, como que se o raciocínio e a conclusão deles fossem automaticamente estendidos à nossa mente.

Nos anos mais recentes, os tais em que a cultura pós-moderna fez repensar muita coisa no Adventismo, mesmo aquilo que não tem nada para repensar, a “verdade presente” tem vindo a ser tão desvalorizada, ignorada, passada por alto, que entre as últimas gerações de Adventistas (daqueles nascidos e criados “na igreja”) não serão a maioria os que poderão responder com aprovação a questões tão simples como: quais são as três mensagens angélicas (ainda que resumidamente, numa só linha), quem é representado pelas duas bestas de Apocalipse 13 (só os nomes, sem necessitar de explicação), de que importante profecia fala Daniel 2, em que capítulo encontramos os Dez Mandamentos, qual a pedra de toque e sinal de fidelidade ao Deus Criador, e outras que deveriam ser tão basilares na nossa fé como pão e água na alimentação.

Fizéssemos uma amostra aleatória e representativa de membros comuns com mais de 10 anos de igreja e lhes pedíssemos um resumo dos eventos finais que conduzirão ao regresso de Jesus e o que sucederá logo depois, certamente verificaríamos que a situação não é a mais animadora…

Na realidade, temos jovens e adultos que são verdadeiros especialistas quando se trata de ficar pendurados em cordas e remar barcos, mas que não são capazes de apontar os valores e princípios que verdadeiramente distinguem os Adventistas de todo e qualquer outro corpo religioso, no fundo, a razão para pertencer a este movimento. Isto, na linha da substituição de conteúdos que temos vindo a patrocinar.

Por exemplo, até as apresentações que as crianças faziam na igreja perante os adultos – as outrora famosas e biblicamente engrandecedoras declamações do decálogo sagrado, das bem-aventuranças, das tribos de Israel, dos nomes dos discípulos de Jesus, das igrejas proféticas de Apocalipse e outras – foram trocadas por acenos com bandeirinhas de países distantes e meio exóticos, músicas que entretecem o coração de uma ternura reconfortante mas não eminentemente bíblica, e outros componentes fracos na sua essência, substância, quanto àquilo que permanece. Os elos da completa mensagem Adventista foram substituídos pelos isolados elos da graça – só por aqui, até já nos podem confundir com qualquer ramo evangélico que dista imenso da “verdade presente” que nos foi entregue e para a qual tantos no passado lutaram e sofreram.

Há uns anos, havia um famoso padre católico português que apontava os Adventistas como sendo demasiado biblicistas. Reconhecemos que é um elevado elogio, dos melhores que nos pode ser feito; mas, pudéssemos agora falar com o padre, teríamos de informá-lo que desgraçadamente o rótulo já não combina com todo o conteúdo, e insistir nessa etiquetagem seria incorrer em publicidade enganosa. Infelizmente.

Por muito que optemos por fechar os olhos com argumentos parciais como é o facto de sermos a “igreja do Senhor”, é indisfarçável que ao longo das últimas décadas temos vindo a criar uma vasta hoste de analfabetos espirituais, assim ao estilo daquele irmão que após estar há 30 anos na igreja, perguntou ao Pastor quais os versos da Bíblia que falavam do Sábado, pois tinha um vizinho com quem de vez em quando falava sobre o assunto (não é metáfora; é caso real, foi-me contado pelo Pastor em causa). E no final deste cenário todo, o que é que fazemos? Quando dedicamos algum tempo a pensar nisso, gastamos os nossos recursos a fazer estudos e mais estudos, apenas e só para tentar perceber um diagnóstico que há muito está escancarado à nossa frente: deixamos de exercer o ministério que o Senhor nos entregou para este tempo, deixamos de pregar as nossas distintas e específicas mensagens, deixamos de ensinar isso aos novos conversos e às nossas crianças.

Genericamente, num sentido lato, estamos a formar alguns cristãos mas cada vez menos Adventistas. Em meio a isso e concorrendo para o mesmo efeito nefasto, temos deixado que as novas vagas de secularismo e mundanidade se intrometam na igreja, obscurecendo a nossa visão quanto ao propósito para a qual Deus a estabeleceu (não sou eu que o digo; veja a mensagem do Pr. Ted Wilson, presidente da Conferência Geral, “Um Urgente Chamado Profético”, na qual ele assume e adverte para isto mesmo, desde os pastores até aos leigos).

Perguntamos: quer isto dizer que a “verdade presente” perdeu alguma validade? Precisa ser reparada, retificada, corrigida? Respondemos: não; infelizmente, nós, os portadores dessa mensagem, é que nos estamos a desqualificar para a obra de a proclamar! Ficará essa proclamação órfã? Haverá algum défice na obra que Deus tem para efetuar no mundo através da Sua igreja? Responde a mensageira inspirada do Senhor:

“O Senhor Jesus sempre terá um povo escolhido para servi-Lo. Quando o povo judeu rejeitou a Cristo, o Príncipe da Vida, Ele tirou-lhes o reino de Deus e entregou-o aos gentios. Deus continuará lidando com cada ramo da Sua obra de acordo com esse princípio. Quando uma igreja demonstra ser infiel à Palavra do Senhor, seja qual for a sua posição e por mais elevada e sagrada que seja a sua vocação, o Senhor não pode mais cooperar com eles. Outras pessoas são então escolhidas para assumir importantes responsabilidades. No entanto, se estes, por sua vez, não purificarem a vida de toda a má ação, se não estabelecerem puros e santos princípios em todos os aspetos da sua vida, o Senhor os afligirá e humilhará dolorosamente, e, a não ser que se arrependam, os removerá da posição que ocupam, tornando-os um opróbrio.” (Ellen White, Manuscript Releases, v. 14, p. 102)

Meu irmão, a misericórdia do Senhor não suportará para sempre com o desleixo e negligência que tem havido entre nós no rebaixar na sagrada missão que Ele nos entregou. Há que refocar urgentemente a nossa atenção naquilo que realmente importa para os críticos tempos em que vivemos.

Paulo descreveu a sua missão da seguinte maneira:

“Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho!” (I Coríntios 9:16)

E o próprio Jesus disse daqueles que um dia se entregaram a essa mesma missão:

“Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.” (Lucas 9:62)

Ao mesmo tempo, a Sua promessa e convite permanecem inalteráveis:

“O Senhor terá um povo tão verdadeiro como o aço, de fé tão firme como o granito. Eles devem ser-Lhe testemunhas no mundo, instrumentos Seus para realizar uma obra especial, gloriosa, nos dias da Sua preparação.” (Ellen White, Testimonies, v. 4, p. 594)

Tenha bom ânimo; a promessa feita pelo Senhor a alguns no passado, mantém-se válida nos dias de hoje:

“Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.” (Apocalipse 2:10)

PARTILHE ESTE ARTIGO!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *