Está a Igreja Adventista dividida entre conservadores e liberais?

Talvez não falemos muito disso, pelo menos abertamente, mas tal não quer dizer que a questão não exista. Talvez seja por desconforto, negligência ou ideia de irrelevância, mas o facto é que normalmente preferimos passar ao lado mesmo quando as evidências mostram divisão e afastamento em vez de união e inclusão.

É isso mesmo que sucede quanto temos de falar de conservadores e liberais entre nós. E como as posturas são cada vez mais distintas, começa a ficar perigoso ignorar o assunto e não percebê-lo. Devemos fazê-lo com o rigor e a consciência possível, atentos às implicações que daí decorrem e suportados no conselho que o Senhor deixou através de Sua serva, Ellen White:

“Como fiéis atalaias, deveis dar o aviso ao ver que vem a espada, para que homens e mulheres, pela ignorância, não sigam um rumo que evitariam se conhecessem a verdade.” (Review and Herald, Extra, 24 de dezembro de 1889)

Façamos essa reflexão séria dentro de um espírito de esclarecimento, auxílio aos irmãos e contributo para o crescimento da igreja do Senhor. Acima de tudo está o objetivo de ajudar outros a tentarem perceber a igreja real que existe hoje mas que, normalmente e por várias razões, escapa ao olhar da maioria, em preparação para os tempos em que vivemos e os que se aproximam a passos largos. Como autor da reflexão proposta, não reclamo isenção ou imparcialidade total no pensamento exposto nem me coloco para lá e a uma distância inalcançável de qualquer crítica que se entenda como oportuna.

Na Igreja Adventista, a distinção entre conservadores e liberais começou a notar-se mais fortemente depois do meio do século XX, porventura após a publicação de “Questões Sobre Doutrina”, e a controvérsia e divisão que se seguiu – um período quase coincidente, ou talvez não, com o final e publicação das conclusões do Concílio Vaticano II (o que nos levaria a outros assuntos que por agora passamos adiante…) – momento a partir do qual as ruturas e cisões começaram a ser muito mais sérias e frequentes. Antes, a Igreja Adventista tinha-se mantido mais ou menos estanque a infiltrações – refiro-me a práticas, não tanto a pessoas – que colocassem em causa tudo quanto com muito esforços, suor e lágrimas se tinha conseguido erguer. Éramos uma espécie de caixa-forte à prova de assalto, cujo tesouro estava tão bem seguro que a sua guarda não motivava preocupações especiais. Isto é algo que tem drasticamente vindo a mudar.

Se recuarmos até aos tempos bíblicos, em particular do Novo Testamento, podemos claramente perceber a existência de diferenças entre duas classes, na figura dos fariseus e saduceus.

Resumidamente: os primeiros, guardiões da sabedoria e tradições milenares, embora extremamente devotos, tantas vezes exageradamente, das leis e costumes, não evitaram ser acusados por Jesus como sendo “filhos do diabo” (João 8:43); os saduceus, que, entre outras caraterísticas, desprezavam o sobrenatural, incluindo a ressurreição – o que talvez os tornasse hoje muito bem aceites no meio científico-cultural – não fizeram Jesus perder muito tempo com argumentações, tendo-os Ele desmascarado como “não conhecendo as Escrituras” (Mateus 22.29).

Transportando até aos dias atuais, como é que podemos hoje detetar e identificar os potenciais grupos opostos entre nós?

Tentarei apresentar um panorama que torne fácil olhar para a nossa igreja atual, que resulta em grande medida das vagas de pluralismo que nela se manifestam, algo muitas vezes não discernido nem percebido. Reconhecendo que podemos sempre abrir espaço a subdivisões entre estes grupos que os qualifique melhor e em mais detalhe, creio não ser abusivo fazer a generalização com a designação proposta no título.

Os liberais são aqueles abertos às novas influências que a sociedade lhes apresenta, sempre dispostos a mais uma novidade, nem que isso implique colocar em causa princípios e valores que deveriam ser inegociáveis. Muitos são ativistas de vanguarda, assim ao jeito de um qualquer membro do “Greenpeace” ou de um sindicato que faz de uma causa ambiental ou social a razão da sua luta. Outros, nem precisam de ser assim tão incisivos, bastando para isso refugiar-se no crescente relativismo que deixa ao critério de cada um definir o que é certo e o que é errado, ameaçando por vezes o desmoronar da unidade doutrinal que nos torna um povo distinto. Acham que as mensagens dos três anjos devem ser revistas à luz dos tempos atuais, em que nem tudo é como dantes pois, supostamente, muitas coisas mudaram.

Para eles, “pregar Jesus” implica mencionar apenas os atos de amor, aqueles que são agradáveis ao ouvido, “verdade presente” é um conceito que deveria ser reciclado, e assuntos como “lei dominical” e “fuga das cidades” são paranoias de gente inculta e supersticiosa. Em caso de conflito entre ciência e Bíblia, normalmente a primeira prevalece. Costumam sentir-se à vontade com o pensamento ecuménico de “esqueçamos as diferenças; concentremo-nos no que é comum”. Ainda assim, podem por vezes não ser declarados e assumidos nas suas posições. Alguns deles acham que os conservadores são fanáticos irredutíveis.

Por seu lado, os conservadores são aqueles que tentam vincar e exaltar os marcos antigos como imutáveis e suficientes para a identidade e exercício da sua fé. São resistentes a mudanças e alérgicos a modernismos que podem passar pelo vestuário, música, entretenimentos e toda uma série de comportamentos que apelidam de mundanos. São propensos a uma vida de rigoroso respeito pelo que é correto, arriscando não poucas vezes inverter a ordem de processos que parte da salvação para a obediência, roçando pelo caminho o perigoso domínio do legalismo. Em certo sentido, reclamam ser e seguir a linhagem histórica dos pioneiros, que não será derrubada. Alguns acham que os liberais são infiéis e apóstatas.

Mas há uma outra diferença entre os dois grupos que convém mencionar especificamente e que, além de complementar as descrições anteriores, nos ajuda a perceber muito do que se passa à nossa volta e também como, infelizmente, chegamos a certo ponto em vários aspetos.

Os liberais são muito organizados, metodológicos e estrategas. Estabelecem um objetivo, traçam planos e não descansam enquanto não atingem o que pretendem, mesmo que tenham de usar meios menos próprios ou ortodoxos. Simplesmente, têm uma mente orientada para a ação incansável que os leve onde querem e não param enquanto não o conseguem. À boa maneira do pensamento de esquerda, têm de reconhecer ou criar uma causa – legítima ou não – dentro da causa maior, que se torna a razão da sua existência e labor, e à qual entregam todas as suas energias. E como, regra geral, aceitam como possível e admissível tudo quanto lhes surge pela frente, quer fruto de uma superioridade intelectual ou das pressões do mundo ao redor, dedicam-se a esforços de todo o tipo – teológicos, administrativos, políticos, etc. – até que possam cantar vitória (literalmente).

Os conservadores apresentam uma postura bem diferente: sabem para onde querem ir, qual a meta a atingir, mas como que ficam simplesmente à espera que as coisas aconteçam por si mesmas ou que, melhor ainda, Deus coloque em ordem tudo o que está menos bem e, finalmente, os Seus desígnios, que tanto anseiam, se cumpram de um momento para o outro, nem que para tal o chão se abra para engolir os errantes. Eles tendem a crer que como Deus comanda e controla a igreja – o que é totalmente verdade! – é impossível que ela seja estragada, danificada para além de prejuízo irreparável, não se sentindo por isso na obrigação ou dever de permanecer especialmente vigilantes e agir, mesmo que as circunstâncias o exijam para além de dúvida. À boa maneira da direita, vivem de uma espécie de heráldica que lhes suporta o status e da bênção recebida por hereditariedade espiritual que julgam ser suficiente para salvaguarda deles mesmos e da manutenção da igreja como desde sempre a conheceram.

É essencialmente por esta razão que novos ares têm soprado e se instalado entre nós com alguma facilidade: as vagas manhosas e insidiosas que nos têm invadido nas últimas décadas não têm sido enfrentadas, combatidas por aqueles que, no posto de vigia, apenas observam e, eventualmente, lamentam o que vai acontecendo, mas não mexem uma palha, uma caneta ou uma voz para denunciar o erro e advertir os inocentes e desavisados para os perigos que ameaçam devorá-los e aos seus filhos ao exporem a igreja a teorias e práticas que se foram lenta ou rapidamente introduzindo com o único objetivo – porventura muito bem gizado e encapotado – de nos descaraterizar, retirando-nos a identidade clara e específica que nos deveria fazer destacar perante o mundo.

Por um lado, percebemos que o silêncio evita uma confrontação que seria sempre dispensável. Mas entre isso e ser conivente e cúmplice na destruição de valores e práticas que nos têm forçosamente de distinguir, fica claro o que devemos fazer.

Contudo, como igreja, comunidade, nunca devemos esquecer algo tremendamente importante: a ação em favor da verdade e da igreja do Senhor, da sua missão e mensagem, nunca é contra pessoas:

“Não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” (Efésios 6:12)

Portanto, a luta é contra a mentira, a falsidade, o engano e a contrafação, conforme são denunciados na Bíblia. O problema, reconheçamos, é que normalmente isso implica e arrasta a pessoa (havendo mentira tem de haver mentiroso…), provocando um dano colateral que, menos mal, só atingirá quem não se quiser corrigir.

Por estranho que possa parecer a alguns, ambos os grupos reivindicam fundamentação bíblica para as suas posições (embora os liberais não resistam à tendência de se basearem em autores extrabíblicos e extra-adventistas), o que só se pode entender à luz de diferentes métodos de abordagem das Escrituras, uma postura que tem ficado bem evidente em alguns debates recentes no seio da igreja, ao mais alto nível.

Assim, um observador minimamente atento não terá muita dificuldade em constatar que não apenas esses dois grupos existem, como também se estão a fortalecer internamente e a afastar entre si.

Aqui talvez encontremos outra razão para as diferenças entre eles: parece estar a criar-se um clima de irreconciliação (entenda-se: ideológica), um caminho de não retorno em que é mais o que os afasta do que aquilo que os une. Por que sim, há valores e princípios que estão em causa, que uns entendem dever adaptar aos tempos atuais e à cultura vigente, outros consideram inabaláveis e aos quais nem um jota ou um til se deve retirar ou acrescentar.

O que fazer? Será isto crítico do ponto de vista da nossa própria existência?

Creio que será para quem não estuda a Bíblia e os testemunhos inspirados! Para os que o fazem, isto é apenas e só a constatação do que há muito está previsto, nos seguintes termos:

“Introduzir-se-ão divisões na igreja. Desenvolver-se-ão dois partidos. O trigo e o joio crescerão juntos para a ceifa.” (Ellen White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 114)

“A história da rebelião de Datã e Abirão está-se repetindo e continuará a repetir-se até o fim do tempo. Quem estará ao lado do Senhor? Quem será enganado, tornando-se também, por sua vez, um enganador?” (Carta 15, 1892)

Estou com isto a inferir que “trigo” e “joio” é a exata descrição simbólica de conservadores e liberais (não necessariamente em ordem respetiva) neste tempo? Não, não estou; apenas e só a sugerir que a perceção que podemos fazer das diferenças entre conservadores e liberais é a melhor forma que temos atualmente para aferir a divisão e a formação de dois partidos entre nós, sendo que em ambos podemos encontrar tanto “trigo” como “joio”, tanto “enganados” como “enganadores”.

Ainda que não possamos concreta e definitivamente vincular aquela simbologia a estes dois partidos – conservadores e liberais – o que não podemos descartar é que pode estar já diante dos nossos olhos o cumprimento ou o princípio de um cumprimento maior do texto que lemos antes sobre a existência de dois partidos entre nós e que, estamos avisados, tem mesmo de acontecer.

Dito isto, algo resulta como óbvio: podendo eventualmente estar os dois grupos errados, não podem estar os dois certos.

Até aqui, neste raciocínio, a análise proposta tentou ler a igreja como um todo. Agora, tentarei ter o mesmo olhar mas no âmbito restrito dos líderes, das pessoas que ocupam funções de liderança e governo na igreja.

Assim sendo, no que resulta, essencialmente, a diferença entre conservadores e liberais na liderança da nossa igreja?

Olhando para os desenvolvimentos das últimas décadas, podemos dizer em curtas palavras: os liberais estão a crescer. A sua influência é cada vez mais abrangente e visível, por vezes descarada embora nem sempre corretamente discernida, enquanto os conservadores parecem atacados por uma dormência incorrigível e inadmissível face ao atual estado de coisas.

Tal situação não é recente. Exercendo a tal estratégia ativista que mencionei atrás e à medida que iam sendo colocados em lugares e posições de liderança, os liberais começaram a criar uma fortaleza político-administrativa para a qual convidaram e permitiram acesso apenas aos seus apaniguados ideológicos. Se surgia alguma resistência incómoda, logo os conservadores eram empurrados para um redil castrador, sendo que na maioria das vezes os liberais nem precisaram esforçar-se muito por isso – os conservadores, insatisfeitos ou desgostosos com o rumo dos acontecimentos, demitiram-se eles mesmos de ter parte ativa, uma voz que fizesse soar o alarme, refugiando-se no tal sentimento de que Deus colocará tudo em ordem, ficando quietos, impávidos e serenos quando deveriam ter percebido no que de tudo aquilo, incluindo a sua inação, acabaria por resultar.

Assim, lentamente, os liberais, assumindo o controlo das estruturas, foram alterando a identidade e a imagem da igreja mantidas praticamente desde o início até há cerca de 50 anos, introduzindo ou aceitando nela aquilo que os conservadores chamam de mundanismo e que qualquer erudito (que nem precisa ser Adventista) percebe como evidências de pós-modernismo e secularismo.

Se porventura acha que estou a ser demasiado crítico, saiba que não foram os conservadores que começaram a frequentar as formações espiritualistas de Rick Warren e outras figuras influentes da religiosidade americana; não foram os conservadores que insistiram na introdução de técnicas de formação espiritual na nossa igreja apesar do apelo em contrário do presidente da Conferência Geral; não foram os conservadores que começaram a aceitar comportamentos sexuais que a Bíblia condena, hoje apelidados de forma politicamente correta como “alternativos”; não foram os conservadores que cederam aos impulsos socioculturais que culminaram na rebelião contra a autoridade estabelecida na igreja no que à ordenação de mulheres diz respeito; não foram os conservadores que tiveram a espantosa ideia de proibir a distribuição do livro “O Grande Conflito” ou retirar-lhe os capítulos menos “simpáticos” para com Roma; não foram os conservadores que começaram a favorecer a ideia de que o papado não é e nada tem relacionado com o anticristo que a Bíblia apresenta; não foram os conservadores que introduziram no currículo escolar dos nossos estudantes de teologia visitas e participações em eucaristias católicas; não foram os conservadores que começaram a publicar nas nossas revistas oficiais artigos a ridicularizarem a criação literal em seis dias consecutivos de 24 horas e a existência de um dilúvio universal; não foram os conservadores que introduziram músicas e estilos musicais que os nossos próprios documentos condenam; não foram os conservadores que insistentemente começaram a desvalorizar o ministério profético de Ellen White e o classificam como sendo o resultado de ataques epiléticos…

E porque é que isto – e até mais! – não apenas prevaleceu como também ficou impune? Porque os liberais já estavam no comando das operações na nossa igreja, exercendo entre si uma conivência e cumplicidade atrozes que não dá para disfarçar, mas da qual parecem não encontrar razões para se envergonharem, muito menos arrepiar caminho.

Assim, fica claro quem está a ganhar a batalha (ao estilo de “um contra nenhum”…) pelo domínio e influência na igreja ao nível da sua liderança terrena: os liberais.

À luz do exposto, será que a atual e evidente divisão entre conservadores e liberais é mesmo irreparável, antes, será mais e mais extremada? É bem possível que sim, como confirmado por Ellen White:

“Começou a forte sacudidura e continuará, e todos os que não estiverem dispostos a assumir posição ousada e tenaz em prol da verdade, e a sacrificar-se por Deus e por Sua causa, serão joeirados.” (Vida e Ensinos, p. 107)

“Temos esperança de ver toda a igreja reavivada? Tal tempo nunca há-de vir. Há na igreja pessoas não convertidas, e que não se unirão em fervorosa, prevalecente oração.” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 122)

Perante isto, o que tem sido feito?

Comecemos pelos liberais. Como tudo ou quase tudo parece estar bem – principalmente, na sua visão, a adaptação da igreja aos tempos modernos e à cultura circundante – o caminho parece ser de continuação através de crescente aceitação social e relevância comunitária (uma mistura conhecida como “evangelho social”, que talvez seja o parente protestante mais próximo da “obra de caridade” católica e da filantropia secular), que acabam por se tornar a razão da existência da igreja. Junte-se a isto o silenciamento de vozes discordantes – seja por simples marginalização, difamação ou até mesmo exclusão de membro – e a receita estará perfeita.

Quanto aos conservadores, insistem muitas vezes no alargar do erro de demissão que a sua conduta já implicou. Ao perceberem o estado a que muita coisa na igreja chegou, não percebendo como reagir e contrariar o que veem como errado à volta, alguns agravam a sua culpa ao se afastarem da comunhão dos crentes, refugiando-se numa espécie de clausura elitista e de superioridade moral que os leve a não se contaminarem com o que julgam ser o mal vigente.

Admitindo por um só momento este tipo de atitude, entre todas as implicações negativas resulta daqui que na igreja ficam os “maus”, os que a estragam e corrompem. Se os “bons”, aqueles que querem ficar puros e incontaminados (o que, por si só, é um excelente propósito), se afastam da igreja, quem fica nela? Nem mais, os “maus” da fita. E aí, onde estão aqueles que deveriam fazer um contraponto para impedir o derrube dos marcos antigos? Escondidos num qualquer refúgio criado à medida dos seus medos e temores, sem poder exercer qualquer tipo de influência benéfica e duradoura, catalogados como extremistas, radicais e até mesmo separatistas. Ou seja, são ausentes e ineficazes, justamente quando deles mais se precisava.

Pior ainda, é quando alguns conservadores se afastam tanto do campo de ação que para além de se dedicarem extensivamente à crítica gratuita à igreja, particularmente a sua liderança, se transformam em espécies tão raras que acabam por não conseguir alcançar os outros ao seu redor. Seja por excesso de zelo ou por tentar alcançar uma santificação que, depois vê-se, depende mais de si mesmos do que do Espírito, afastam-se do mundo real como apenas se deverá fazer após o encerramento do tempo da graça. Ao tentarem proteger-se das más influências, criam uma barreira que lhes impede fazer a obra para a qual todos foram chamados.

Contudo, nos anos mais recentes temos visto alguma inversão nos comportamentos dos conservadores, nomeadamente aqueles considerados mais moderados. Enquanto alguns liberais parecem tornar-se cada vez mais ousados na sua empreitada, esses conservadores dão sinais de estarem a sair da letargia que durante tanto tempo os atingiu e infetou o ministério. Como que “perdem a vergonha” e lançam mãos à obra de defender verdades adulteradas e corrompidas sem se preocuparem demasiado com as críticas dos opositores que, tantas vezes, incidem mais sobre a pessoa ou até o método do que sobre o conteúdo, a substância.

Embora provocando natural fricção e o acentuar das diferenças entre as partes, este despertar e reanimar por parte dos conservadores tem provocado uma definição de posições cuja tendência é tornar-se mais nítida com o tempo e produzir o que houver para produzir.

A este propósito, vejamos alguns textos da mensageira do Senhor, Ellen White:

“Perguntei qual o sentido da sacudidura que eu acabava de presenciar e foi-me mostrado que fora causada pelo positivo testemunho motivado pelo conselho da Testemunha fiel, aos laodiceanos. Esse testemunho terá o seu efeito sobre o coração do que o recebe, levando-a a exaltar a norma e declarar a positiva verdade. Alguns não suportarão esse claro testemunho. Opor-se-lhe-ão e isto causará uma sacudidura entre os filhos de Deus.” (Testemunhos Seletos, v. 1, p. 60)

“Em toda igreja deve haver um processo tendente a aprimorar e joeirar, pois entre nós há homens perversos, que não amam a verdade nem honram a Deus.” (Review and Herald, 19 de março de 1895)

“Haverá uma sacudidura da peneira. No devido tempo, a palha precisa ser separada do trigo. Por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos está esfriando. Este é precisamente o tempo em que o genuíno será o mais forte.” (Carta 46, 1887)

“Estamos no tempo da sacudidura, tempo em que cada coisa que pode ser sacudida, sacudir-se-á. O Senhor não desculpará os que conhecem a verdade, se não obedecem a Seus mandamentos por palavra e ação.” (Testemunhos Seletos, v. 2, p. 548)

“A igreja talvez pareça como prestes a cair, mas não cairá. Ela permanece, ao passo que os pecadores de Sião serão lançados fora na sacudidura – a palha separada do trigo precioso. É esse um transe terrível, não obstante importa que tenha lugar.” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 380)

Portanto, também resulta daqui que essa ideia de grande união na igreja em torno da verdade presente para este tempo, proclamando-a ao mundo com força e vigor sem olhar a constrangimentos, surgirá somente depois de a sacudidura produzir os seus maiores efeitos separando, dividindo a palha do trigo. Assim jamais podemos deduzir que todos quantos fazem hoje parte da igreja serão os atores dessa união invencível que por fim chegará.

Meditemos seriamente neste texto de Ellen White:

“Toda forma de mal está à espreita de uma oportunidade para nos assaltar. Lisonja, subornos, incentivos, promessas de maravilhosa exaltação, serão muito assiduamente empregados.
Que estão fazendo os servos de Deus para erguer a barreira de um “Assim diz o Senhor” contra este mal? Os instrumentos do inimigo estão trabalhando sem trégua para prevalecer contra a verdade. Onde se encontram os fiéis guardas do rebanho do Senhor? Onde estão Seus vigias? Acham-se eles na elevada torre, dando o sinal de perigo, ou estão permitindo que o perigo passe desapercebido? (…) Satanás e seus anjos estão fazendo todo esforço para conseguir o domínio da mente, para que os homens sejam manejados por mentiras e fábulas aprazíveis. (…)

Estão muitos dos vigias dormindo, enquanto línguas daninhas e mentes aguçadas, afiadas por longa prática em desviar-se da verdade, estão em contínua atividade para introduzir confusão, e a executar planos a que são instigados pelo inimigo?” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 124)

Na mesma compilação, encontramos:

“Como um povo, devemos estar firmes sobre a plataforma da verdade eterna, que resistiu a todas as provas. Devemos ater-nos aos seguros pilares de nossa fé. Os princípios da verdade que Deus nos revelou, são nossos únicos, fiéis alicerces. Eles é que fizeram de nós o que somos. O correr do tempo não lhes diminuiu o valor. É constante esforço do inimigo remover essas verdades de seu engaste, colocando em seu lugar teorias espúrias. Ele introduzirá tudo que lhe seja possível, para realizar seus desígnios enganadores. O Senhor, porém, suscitará homens de aguda perceção, que darão a essas verdades seu devido lugar no plano de Deus.” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 201)

E se pensamos que todo este raciocínio invoca os perigos que o mundo apresenta à igreja, então pensemos novamente:

“Temos muito mais a temer de dentro do que de fora. Os obstáculos à força e ao êxito são muito maiores da parte da própria igreja do que do mundo.” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 122)

Não temos tempo a perder. O mundo aproxima-se rapidamente das últimas cenas da sua história. O Senhor precisa de servos fiéis que se ergam, acima do conforto e circunstâncias ao redor e erros que fomos admitindo entre nós, na proclamação das urgentes mensagens de advertência a um mundo perdido, mesmo que para isso tenham de experimentar a oposição de uma maioria que os deveria apoiar.

Novamente pela pena da mensageira do Senhor, Ellen White:

“Quando a religião de Cristo for mais desprezada, quando Sua lei mais desprezada for, então deve nosso zelo ser mais ardoroso e nosso ânimo e firmeza mais inabaláveis. Permanecer em defesa da verdade e justiça quando a maioria nos abandona, ferir as batalhas do Senhor quando são poucos os campeões – essa será nossa prova. Naquele tempo devemos tirar calor da frieza dos outros, coragem de sua covardia, e lealdade de sua traição.” (Testemunhos Seletos, v. 2, p. 31)

Podemos ficar satisfeitos ao perceber a dura realidade de que a divisão entre nós é algo que não podemos evitar? Não podemos; mas também não podemos criar um mundo ilusório em que o ideal e idílico se sobrepõe ao real.

O apóstolo Paulo deixou bem claro que divisões, dissensões, fações (Gálatas 5:20) são uma obra da carne e não do Espírito. De facto, o que Deus deseja na Sua igreja é união – de sentimentos e esforços. Ainda assim, essa união não poder ser tentada e muito menos conseguida comprometendo e cedendo em princípios e valores. Como acertadamente alguém disse, mais vale separados pela verdade do que unidos pelo erro. Esta pode até parecer uma posição divisionista, mas tal como o sábio, devemos dizer:

“Leais são as feridas feitas pelo amigo, mas os beijos do inimigo são enganosos.” (Provérbios 27:6)

Voltando à questão central, talvez a compreendamos muito melhor se, aproveitando toda a reflexão e raciocínio feitos, não a colocarmos no patamar conservador vs. liberal, mas sim fiel vs. infiel – a última, exata e perfeita medida diante de Deus, aferida segundo o Seu critério.

Atentemos às seguintes citações de Ellen White:

“Levante-se a oposição, de novo exerçam o domínio o fanatismo e a intolerância, acenda-se a perseguição, e os insinceros e hipócritas vacilarão, renunciando a fé; mas o verdadeiro crente permanecerá firme como uma rocha, tornando-se mais forte a sua fé, sua esperança mais viva do que nos dias da prosperidade.” (O Grande Conflito, p. 602)

“O diabo não está morto. Está trabalhando com todas as suas atraentes ciladas para persuadir as pessoas a fecharem os ouvidos a fim de que não ouçam, e milhares que deveriam estar dando esta mensagem ao mundo ocultam os seus talentos na terra. Não estão utilizando suas capacidades para atrair pessoas para a mesa generosamente posta. Infiéis e indolentes servos! Deus lhes pedirá contas. Mas agradecemos a Deus porque se fazem ouvir algumas vozes fiéis, porque existem alguns que sentem a sua responsabilidade, e que trabalham com todos os recursos ao seu alcance para compeli-los a entrar.” (Carta 89, 1898)

“Alguns tinham sido arrojados fora do caminho. Os descuidosos e indiferentes, que não se uniam com os que prezavam suficientemente a vitória e a salvação, para por elas lutar e angustiar-se com perseverança, não as alcançaram e foram deixados atrás, em trevas, e seu lugar foi imediatamente preenchido pelos que aceitavam a verdade e a ela se filiavam.” (Primeiros Escritos, p. 271)

“Estandarte após estandarte era arrastado no chão, à medida que grupo após grupo do exército do Senhor se juntava ao inimigo, e tribo após tribo das fileiras do adversário se unia ao povo de Deus que guarda os mandamentos.” (Testemunhos Seletos, v. 3, p. 224)

Há que escolher sem demora o lado certo para estar e lutar – pode ser que a peneira da sacudidura esteja já a mover-se com toda a força, tanto sobre conservadores como liberais, enquanto a grande maioria entre nós continua demasiado distraída. Há que despertar para os tempos e agregar as forças de fidelidade que ainda se mantém dispostas ao serviço conforme Deus o determinou e não conforme nós o manipulamos e sujeitamos às nossas próprias inclinações.

Neste âmbito, saibamos perceber a urgência dos tempos, conforme o Senhor nos admoesta através de Ellen White:

“A classe de professos guardadores do sábado que procuram formar uma união entre Cristo e Belial, que sustentam a verdade com uma das mãos, e com a outra o mundo, tem circundado os seus filhos e envolvido a igreja com uma atmosfera inteiramente estranha à religião e ao Espírito de Cristo. Não têm ousado opor-se abertamente aos reclamos da verdade, nem tomam nítida posição para dizer que não creem nos testemunhos; mas, ao passo que nominalmente creem em ambos, não obedecem a nenhum. Por seu comportamento têm negado a ambos. Desejam que o Senhor cumpra para com eles Suas promessas, mas recusam aceitar as condições sobre que estão baseadas essas promessas. Não estão dispostos a renunciar a nenhum concorrente por Cristo. Sob a pregação da Palavra há uma supressão parcial do mundanismo, mas nenhuma radical mudança das afeições. Desejos mundanos, concupiscência da carne, concupiscência dos olhos, soberba da vida, ganham finalmente a vitória. Essa classe é toda composta de cristãos professos. Seus nomes estão nos livros da igreja. Por algum tempo eles vivem aparentemente uma vida religiosa, e então entregam o coração, não raro definitivamente, à predominante influência do mundo.” (Conselhos Sobre Educação, p. 83)

“Necessitamos hoje de homens totalmente fiéis, homens que sigam ao Senhor com integridade, homens que não sejam capazes de silenciar quando devem falar, firmes como o aço em seguir o princípio…” (SDA Bible Commentary, v. 1, p. 1.113)

Conclusão: conservador ou liberal? Procure ser fiel, é isso que o Senhor nos pede.

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