O crime da conversão

Todos já percebemos que por vezes há necessidade de agir sobre um irmão porque o seu comportamento não se tem mostrado enquadrado nos parâmetros de vida que a Igreja defende. São várias as razões que a isso podem levar e por vezes dolorosas as posições que o corpo de crentes tem de tomar. Não necessariamente isto envolve uma disciplina administrativa, que surge quando o caso é grave; não o sendo, uma conversa, um acompanhamento mais próximo e um simples trabalho espiritual pode mostrar-se muito eficaz para ajudar o nosso próximo.

Atualmente, temos assistido a uma vaga intensa de um novo tipo de transgressão que motiva reparo e correção. Desta vez, a violação não é às normas, valores e princípios que nos regem, mas a alguns novos conceitos que nos invadiram, os tais que se tentam impor por hábito, agradabilidade e concordância geral e não tanto por fundamento bíblico. Pode nunca ter sequer pensado nisso, mas é uma ofensa extremamente fácil de constatar: a conversão.

Passo a explicar. Todos conhecemos algum membro da igreja que tem um exercício de fé deficitário: pouco envolvido nas atividades da igreja, raramente estudante das lições da Escola Sabatina, sempre ávido para debater futebol, música, filmes, etc., propenso a festas e programas de caráter lúdico, talvez um pouco negligente quanto à observância rigorosa do Sábado, frequentador de lugares não recomendáveis a um adventista do sétimo dia, enfim, um pouco de tudo aquilo que nos enche de mornidão, apatia, dormência, ou mesmo até grave infidelidade e apostasia. Contudo, irá reparar que a igreja (como um todo e cada um de nós) parece muitas vezes cega, avessa a qualquer intervenção, mesmo uma simples conversa particular com a pessoa em causa, como se nenhum motivo houvesse para isso. Seguimos todos em frente, como se tudo estivesse certo, quando muito lamentando interiormente o estado do nosso irmão, mas desviando a nossa consciência de qualquer responsabilidade por ser – como somos! – guardadores do nosso irmão.

Agora imagine que essa mesma pessoa, através de uma transformação que o Senhor nela opere, muda radicalmente de estilo de vida. Passa a estar muito envolvido na igreja, estuda e testemunha avidamente os temas da lição da Escola Sabatina, deixa de falar de assuntos seculares, abandona locais e eventos que jamais deveria ter frequentado e se torna um fiel guardador dos mandamentos do Senhor. Mais: imagine ainda que ele se torna um vegetariano (ou vegan) estrito, muda completamente a sua forma de vestir (e, já agora, a esposa faz o mesmo), aborda assuntos bíblicos que, embora rigorosamente verdadeiros, nos são normalmente desagradáveis e desconfortáveis de suportar, e, veja só o desplante, é capaz de apontar comprovadamente os erros que nos corrompem como povo de Deus.

O que acontece neste caso? Também não poucas vezes, a igreja (mais uma vez, como um todo e cada um de nós) desperta subitamente da sonolência para se dedicar a um ativismo militante, incansável e que não olha a justificações para sentenciar o irmão como fanático, extremista, radical, e por isso um mau testemunho para os irmãos e a própria igreja que deve ser rapidamente corrigido. E aqui está o infame crime da conversão! Enquanto a vida for pautada pela mais banal irrelevância religiosa, o silêncio e a inação da maioria, tão cobardes quanto perturbadores, são a regra geral; mas haja um reavivamento e reforma que, entre outros efeitos, condene só por si o comportamento dos que não saem do marasmo vigente, logo todas as forças se movem para condenar aquele que decide arrepender-se e começar um novo rumo.

Negligenciado quando no caminho errado; acusado quando no caminho certo – por que será?

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