O Deus de prateleira

Talvez os nossos eruditos tenham em breve de debruçar-se sobre um novo e estranho método de relacionamento com Deus que tem conquistado cada vez mais adeptos entre nós: chama-se “o Deus de prateleira”.

Acontece que nos sentimos muito confortáveis e despreocupados exercendo a nossa membresia de “cartão de ponto” e “serviços mínimos”: vamos à igreja ao Sábado de manhã – embora atrasados ou bastante atrasados, não há problema, pois o Patrão, aparentemente, não reclama muito –, assinalamos a nossa presença passando em frente e distraindo aqueles que, atentamente, participam nos serviços, pontualmente, desde o início; ficamos em desassossego se o pregador demora um pouquinho mais do que a hora a que nos daria imenso jeito sair; esquecemos por completo que existe um encontro semanal chamado reunião se oração; estudamos a lição da Escola Sabatina – quando estudamos – nos breves minutos livres que a nossa ocupadíssima vida nos permite; e, a meditação matinal resume-se – quando se resume – a ouvir uma música de um hino do nosso hinário que toca nos nossos sofisticados aparelhos enquanto tomamos banho pela manhã (sendo que por vezes temos mesmo de a desligar a meio para não correr o risco da humidade nos estragar o prodígio da tecnologia que tanto apreciamos).

Mas, eis senão quando, um azar, um problema, uma dificuldade, uma aflição séria ou até mesmo uma tragédia nos bate à porta sem aviso. Aí, provavelmente depois de esgotarmos todas as nossas soluções prioritárias, como por exemplo a conta bancária ou outros bens, vizinhos, conhecidos, médicos, advogados e até mesmo – vá-se lá saber porquê – o Pastor da igreja, vemo-nos reduzidos à última das últimas opções, que apesar de ser a mais fiável, económica, duradoura e de efeito perpétuo, se vê remetida para o fundo da lista, certamente que por falta de uso, ambientação, empatia, simpatia e convívio (tudo à nossa responsabilidade, entenda-se): recorrer ao nosso “Deus de prateleira”.

Quem é ele? É um Deus ao qual, apesar de professarmos o contrário, não prestamos a devida atenção e remetemos comodamente a uma prateleira (que poderá ser uma estante, um armário, uma baú ou até uma arrecadação) onde possa ficar quieto e tranquilo sem nos incomodar demasiado, sem perturbar o correr dos nossos dias. Mas é um Deus que, no nosso entendimento, deve estar sempre alerta, à nossa inteira disposição caso dele necessitemos, como tantas vezes acontece. E então, quando isso sucede, vamos apressadamente buscá-lo, sendo que ainda antes de lhe limparmos o pó e confirmarmos o estado, já estamos, de lágrimas no rosto e voz embargada, ou até numa arrogante prepotência de suposto direito exclusivo e legítimo, a debitar toda a nossa extensa lista de exigências e reclamações, na certeza, que se provará mais esperançosa do que segura, de que rapidamente os nossos desejos serão atendidos.

Contudo, reparamos que estávamos enganados: em vez do Deus verdadeiro – Esse que não cabe no Universo inteiro, muito menos numa mísera peça de mobiliário –, o que temos é uma imitação de divindade que criamos para nós próprios e que, como um seguro de vida ou de tudo, nos achamos no direito de reservar para uso numa eventual emergência. E assim, afinal, Ele não está lá – o que sucedeu foi que a nossa mente deixou-se enganar por si mesma, numa confusão em que até podemos acreditar por vontade espontânea mas que a realidade acaba por desmarcar em pouquíssimo tempo.

Apesar disso, quando por misericórdia e compaixão imerecida o verdadeiro Deus decide aparecer e tratar do assunto, resolvendo-nos a dor, talvez nos lembremos de Lhe agradecer, numa curta oração, mental, acelerada, em breves segundos. Afinal, temos mesmo de voltar para a nossa lida muito atarefada.

Com maior ou menor cuidado e delicadeza, voltamos a colocá-Lo na prateleira onde estava, retornando ao demonstrado ciclo vicioso que nos agrada os sentidos e sensações. Pode é não agradar a Ele.

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