Laudato Si – o papa Francisco não diz a verdade

O Vaticano publica hoje oficialmente a segunda encíclica do Papa Francisco, com o título “Laudato Si”. O documento tem uma fortíssima ênfase, alguns dirão quase exclusiva, nas questões ambientais, um assunto que tem sido global e largamente debatido ao longo das últimas décadas.

Logo aqui, um leitor mais atento perguntará de imediato: mas o que tem um Papa, uma figura religiosa, a dizer sobre assuntos deste tipo? A resposta é encontrada mesmo antes da divulgação do texto e ajuda-nos a lê-lo numa perspetiva correta: como reconhecido por todos quantos fizeram a antevisão da encíclica, o Papa Francisco não pretende discutir assuntos de ordem científica – apenas os constata – dedicando-se antes a uma abordagem de caráter essencialmente moral, que foca o cuidado com a criação, a distribuição justa das riquezas e outros assuntos de direito humano.

Isso começa a ficar bem claro quando vemos as várias citações bíblicas que o Papa usa para basear as preocupações e propostas que avança. No capítulo II, secção 71, e referindo-se à destruição do mundo por um dilúvio no tempo de Noé (que, pelo vistos, não é assim tanto um mito como a Igreja Católica alegou antes…) e sua posterior restauração, Francisco escreve:

“A tradição bíblica estabelece claramente que esta reabilitação implica a redescoberta e o respeito dos ritmos inscritos na natureza pela mão do Criador. Isto está patente, por exemplo, na lei do Shabbath. No sétimo dia, Deus descansou de todas as suas obras. Deus ordenou a Israel que cada sétimo dia devia ser celebrado como um dia de descanso, um Shabbath (cf. Gn 2, 2-3; Ex 16, 23; 20, 10).”

Um pouco antes, na secção 68, Francisco escreveu na mesma linha da citação anterior:

“ … A legislação bíblica detém-se a propor ao ser humano várias normas relativas não só às outras pessoas, mas também aos restantes seres vivos: ‘Se vires o jumento do teu irmão ou o seu boi caídos no caminho, não te desvies deles, mas ajuda-os a levantarem-se. (…) Se encontrares no caminho, em cima de uma árvore ou no chão, um ninho de pássaros com filhotes, ou ovos cobertos pela mãe, não apanharás a mãe com a ninhada’ (Dt 22, 4.6). Nesta linha, o descanso do sétimo dia não é proposto só para o ser humano, mas ‘para que descansem o teu boi e o teu jumento’ (Ex 23, 12).”

Um breve reparo é devido, para corrigirmos a falta de rigor do Papa: inicialmente, não foi a Israel que Deus ordenou celebração do Shabbat; logo que a humanidade foi criada, Deus ordenou a Adão e Eva a guarda do Sábado, muito antes de haver Israel como nação.

Contudo, é interessante verificar que o Papa cita o versículo dos Dez Mandamentos, a lei moral, onde o Sábado do sétimo dia (cuja santidade já existia desde a criação) é mencionado por ordem do próprio Deus. Ao fazê-lo, está corretamente a remeter o leitor para a Bíblia, o que só podemos aplaudir.

Mas aqui surge uma questão: não é Roma que alega que essa mesma lei moral já não tem validade, que era uma coisa apenas para os judeus do Antigo Testamento? Não é Roma que faz questão de dizer que essa lei não está mais em vigor? Então, por que razão o Papa lhe faz referência?

Infelizmente, encontramos a resposta mais à frente, numa outra secção em que Francisco, temos de dizê-lo de forma clara, falta à verdade. Recuperando a ideia do descanso semanal, anteriormente confirmado pelo Papa como sendo o Sábado (Shabbat) do sétimo dia, o líder romano elabora mais em detalhe a importância desse repouso. No capítulo VI, secção 237, lemos:

“A participação na Eucaristia é especialmente importante ao domingo. Este dia, à semelhança do sábado judaico, é-nos oferecido como dia de cura das relações do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo. O domingo é o dia da Ressurreição, o ‘primeiro dia’ da nova criação, que tem as suas primícias na humanidade ressuscitada do Senhor, garantia da transfiguração final de toda a realidade criada. Além disso, este dia anuncia ‘o descanso eterno do homem, em Deus’. Assim, a espiritualidade cristã integra o valor do repouso e da festa. O ser humano tende a reduzir o descanso contemplativo ao âmbito do estéril e do inútil, esquecendo que deste modo se tira à obra realizada o mais importante: o seu significado. Na nossa atividade, somos chamados a incluir uma dimensão recetiva e gratuita, o que é diferente da simples inatividade. Trata-se doutra maneira de agir, que pertence à nossa essência. Assim, a ação humana é preservada não só do ativismo vazio, mas também da ganância desenfreada e da consciência que se isola buscando apenas o benefício pessoal. A lei do repouso semanal impunha abster-se do trabalho no sétimo dia, ‘para que descansem o teu boi e o teu jumento e tomem fôlego o filho da tua serva e o estrangeiro residente’ (Ex 23, 12). O repouso é uma ampliação do olhar, que permite voltar a reconhecer os direitos dos outros. Assim o dia de descanso, cujo centro é a Eucaristia, difunde a sua luz sobre a semana inteira e encoraja-nos a assumir o cuidado da natureza e dos pobres.”

Ora, não precisamos de muito esforço para perceber que o Papa confunde o ‘Shabbat’ bíblico do sétimo dia com o domingo, primeiro dia da semana, atribuindo a este a importância e solenidade que, biblicamente, apenas o Sábado do sétimo dia possui. Ou seja, a validade do Sábado do sétimo dia parece ter sido mudada para o domingo, primeiro dia da semana. E mais escandalosa se torna esta confusão, quando vemos que o pontífice romano volta a referenciar o mandamento da guarda do Sábado do sétimo dia para justificar a importância do repouso, descanso… no domingo, primeiro dia da semana!

Não será este um paradoxo difícil de entender? Pode até ser; mas não o é quando percebemos e admitimos que esta alteração é fruto de uma autoridade exclusiva da Igreja Católica Romana, que é exercida contra todas as ordens bíblicas. Não pense que se trata de arrogância de minha parte ao dizê-lo; é a própria Igreja Católica que o assume. Veja as evidências:

“Qual é o sábado? O sábado é o sétimo dia. Por que observamos o domingo em lugar do sábado? Observamos o domingo em lugar do sábado porque a Igreja Católica transferiu a solenidade do sábado para o domingo.” Peter Geiermann, The Convert’s Catechism of Catholic Doctrine (Rockford, IL: Tan Books and Publ., 1977), p. 50.

“A Igreja de Deus porém, achou conveniente transferir para o domingo a solene celebração do Sábado…” Catecismo Romano, edição 1566, p. 440, parág. 5:18.

“A Igreja Católica… em virtude de sua divina missão, mudou o dia de Sábado para o domingo.” Catholic Mirror, 23 de Setembro de 1893.

“Você poderá ler a Bíblia do Génesis ao Apocalipse, e não encontrará uma única linha autorizando a santificação do domingo. As Escrituras ordenam a observância religiosa do sábado.” Cardeal James Gibbons, The Faith of Our Fathers, 47ª edição revista e ampliada (Baltimore: John Murphy & Co., 1895), p. 111 e 112.

Não menos relevante é este excerto do “Catecismo Católico”, segunda secção, terceira parte, capítulo primeiro, artigo 3:

“2189. ‘Guarda o dia do sábado para o santificar’ (Dt 5, 12). ‘O sétimo dia será um dia de repouso completo, consagrado ao Senhor’ (Ex 31, 15). 2190. O sábado, que representava o acabamento da primeira criação, é substituído pelo domingo, que lembra a criação nova, inaugurada na ressurreição de Cristo. 2191. A Igreja celebra o dia da ressurreição de Cristo no oitavo dia que, com razão, se chama dia do Senhor ou domingo (109).”

Repare que para a guarda do Sábado do sétimo dia, a Igreja Católica consegue mencionar o fundamento bíblico; já para a mudança, a substituição desse Sábado para o domingo, primeiro (ou oitavo) dia da semana, não há uma única prova bíblica que o possa fundamentar, como bem evidenciado pelas outras citações anteriores de obras e autores católicos.

Portanto, e voltando à encíclica “Laudato Si”, o Papa Francisco transgride, falta à verdade bíblica quando transfere para o domingo, primeiro dia da semana, a solenidade e o valor moral do Sábado do sétimo dia. Porque é que ele faz isto? Porque de acordo com a profecia de Daniel 7:25, um poder surgiria que iria proferir “palavras contra o Altíssimo” e “mudar os tempos e a lei”, um perfil que encaixa que nem uma luva nesta postura da Igreja Católica Romana de alterar a solenidade do Sábado para o domingo.

A este respeito, o próprio Francisco coloca um laço a si mesmo quando, na já mencionada secção 68 do capítulo II, escreve, citando os Salmos:

“‘Ele [ndr: Deus] deu uma ordem e tudo foi criado; Ele fixou tudo pelos séculos sem fim e estabeleceu leis a que não se pode fugir!’ (Sl 148, 5b-6)”

Aqui, Francisco está correto; não podemos fugir das leis de Deus, o que, obviamente, inclui o Sábado do sétimo dia, ponto culminante da criação!

Na linha milenar dos seus antecessores, o Papa Francisco não é fiel à verdade bíblica do dia divino de repouso.

Os próximos tempos e as tentativas, que estão aí ao virar da esquina, de santificar universalmente o domingo, um dia nem sequer uma única vez mencionado na Bíblia para esse efeito, darão a maior prova disso mesmo.

 

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Um comentário em “Laudato Si – o papa Francisco não diz a verdade

  1. Novamente se faz confusão na interpretação do que diz a Igreja e o papa, isso acontece quando se tenta julgar a fé Católica com a ótica da fé protestante, especificamente protestante adventista. A Igreja tem autoridade para interpretar as Sagradas Escrituras, como diz S. Paulo: a Igreja é a coluna e o sustentáculo da verdade. Jesus não se preocupou com as escrituras, no sentido de deixar algo por escrito, porém se preocupou em estabelecer a Igreja desde o princípio com a escolha dos apóstolos. Com o passar dos séculos essa mesma Igreja, com a autoridade dada pelo próprio Cristo , estabeleceu as escrituras que deveriam ser aceitas entre os cristãos, incluindo o AT. Mas deixando isso de lado, fica muito claro na história de Jesus que o pleno cumprimento da lei do sábado, centro da antiga aliança, se manifesta no domingo ressureição, centro da nova aliança, o primeiro dia da nova criação em Cristo, o dia do Senhor, já que Ele é o centro desse dia, assim como a ressurreição é o cetro de toda a fé cristã, coisas muito bem interligadas. O antigo é sombra do novo e isso foi se tornando cada vez mais claro desde os primeiros séculos da Igreja.

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