Quando Deus ofereceu carne para comer

Entre os argumentos que vão sendo usados para defender, avalizar, tolerar ou até mesmo justificar o consumo de alimentos cárneos, até mesmo exibindo isso como sendo aprovação divina, está o episódio de Números 11, quando o povo pede a Moisés carne para comer e Deus acede ao pedido. Alega-se que, se Deus concedeu nessa ocasião e Ele mesmo enviou a carne, de animal permitido, naturalmente, prova-se então que o seu consumo mesmo entre o povo escolhido está perfeitamente aceite, normalizado e não é motivo de qualquer objeção.

Sendo que a alegação central é correta – Deus permitiu e Ele mesmo enviou alimento cárneo – tentei perceber melhor os contornos do que sucedeu naquela ocasião. E não foi difícil encontrar alguns aspetos muito interessantes nesta história.

No livro de Êxodo 16:35, lemos:

“Comeram os filhos de Israel maná quarenta anos, até que entraram em terra habitada: comeram maná até que chegaram aos termos da terra de Canaã”.

Este texto mostra que Deus os alimentou de maná (não carne) durante toda a peregrinação no deserto, desde a saída do Egito até à terra prometida.

Ainda assim, algo sucedeu durante o segundo ano após a saída do Egito (de acordo com Números 10:11). Em Números 11:1 temos as primeiras reclamações do povo quanto ao regime alimentar, o que levou Deus a irar-se e punir alguns com a morte.

Em rigor, este verso não refere que as queixas eram sobre a alimentação; mas o uso da expressão “tornaram a chorar” no versículo 4 sugere isso mesmo, ideia esta plenamente confirmada por Ellen White (em The Spirit of Prophecy, v. 1, p. 282). Aliás, logo após a travessia do mar Vermelho o povo tinha “murmurado contra Moisés e contra Arão” (Êxodo 16:2) devido à ausência de carne (16.3).

Então, no versículo 4, e apesar do sucedido no versículo 1, o povo volta às reclamações: “Quem nos dará carne a comer?”, ao mesmo tempo que se queixavam (v. 6) de ter apenas o maná como alimento diário. Esta reclamação assumiu contornos de algum dramatismo, pois em Números 11:13 Moisés diz: “Porquanto contra mim choram dizendo: dá-nos carne a comer”, e no versículo 18 o próprio Deus confirma: “Porquanto choraste aos ouvidos do Senhor dizendo: quem nos dará carne a comer, pois bem nos ia no Egito?”.

Assim sendo, Deus decidiu:

“O Senhor vos dará carne, e comereis” Números 11:18

Mas Deus decidiu algo mais, um detalhe muito importante: haveria carne durante um mês inteiro. Vemos isso em Números 11:19, 20:

“Não comereis um dia, nem dois dias, nem cinco dias, nem dez dias, nem vinte dias; mas um mês inteiro…”

Devemos ter em atenção que a história não termina aqui! Logo de seguida é feita a descrição do que sucedeu assim que o povo começou a comer o alimento cárneo:

“Quando a carne estava entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, se acendeu a ira do Senhor contra o povo e feriu o Senhor o povo com uma praga mui grande.” Números 11:33

Esta praga foi fatal para muitos, pois naquele mesmo lugar “enterraram o povo que teve o desejo” (v. 34).

A serva do Senhor complementa:

“Neste caso, o Senhor concedeu ao povo aquilo que não era para seu melhor bem, porque muito o queriam. … Seu apetite depravado os controlava, e Deus lhes concedeu alimento cárneo, como desejavam, e deixou que sofressem as consequências da satisfação de seus apetites concupiscentes. Febres ardentes exterminaram grande número do povo. Os que mais culpados tinham sido em suas murmurações foram mortos logo ao provarem a carne que tinham desejado.” Spiritual Gifts, v. 4, p. 18

Agora, voltemos ao detalhe importante que mencionei atrás: o povo comeu carne durante um mês; resultados? Praga mui grande, febres ardentes (doença) e morte. Um rápido cálculo matemático permite chegar a uma interessante conclusão: se o povo esteve 40 anos no deserto, isso corresponde a 480 meses. Ora, durante 479 desses meses (99,80% do tempo no deserto), eles comeram maná e não houve doença, nem praga, nem mortandade devido a essa alimentação; em contraponto, um único mês (0,20% do tempo no deserto) de alimento cárneo trouxe toda aquela desgraça para a saúde e a própria vida.

Fica bem evidente que Deus permitiu a alimentação cárnea não porque fosse essa Sua superior vontade, mas porque o povo assim insistiu, sofrendo as diretas consequências dessas escolhas.

Será que hoje estamos a repetir o mesmo comportamento, porventura arriscando o mesmo resultado? Devemos lembrar o conselho de Paulo:

“Tudo isso lhes aconteceu como exemplo, e foi escrito como advertência para nós sobre quem o final dos tempos já chegou.” I Coríntios 10:11

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