Livros para meninos e livros para meninas

Mesmo a jeito para agitar a pasmaceira do final das férias e pré-lançar o início do novo ano letivo, eis que surge uma pequena mas não insignificante polémica acerca de dois cadernos de atividades para crianças dos 4 aos 6 anos.

Resumidamente, a Porto Editora, entidade responsável pela edição, publicou dois cadernos de atividades: um para meninos, outro para meninas. Não demorou muito a que se levantassem algumas vozes críticas, enunciando alguns “problemas” com estes cadernos, nomeadamente: os exercícios para meninos eram mais complexos, os das meninas mais simplistas; e, sugeriam funções específicas para meninos, ligadas ao ar livre e fora de casa, e outras para meninas, ligadas à lida do lar e da família.

A associação feminista “Capazes” (não percebi se, na opinião da associação, o respetivo nome se refere a atributo reconhecido aos dois géneros ou a “wishful thinking” vitimista e vitimizante), que se assume como defensora dos direitos das mulheres e da igualdade de género, contestou ainda o uso da cor azul nos cadernos dos meninos e da cor rosa nos cadernos das meninas. Ficamos sem saber se gostariam de sugerir o uso de um arco-íris de seis cores em ambos os casos.

Apenas para registo: não reparei se houve alguma manifestação das associações de defesa dos direitos dos homens (nem sei se elas existem…).

De forma mais relevante, a “Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género”, uma entidade que depende do governo, emitiu um comunicado onde fez a acusação de que a editora “acentua estereótipos de género que estão na base de desigualdades profundas dos papéis sociais das mulheres e dos homens” (Simone de Beauvoir ficaria certamente orgulhosa desta frase). Outro exemplo que a comissão criticou foi o caso de exercícios onde “a proposta para os rapazes é a de um cientista construir um robô, enquanto que para as raparigas é a de ajudar a mãe a preparar o lanche” (não esclareceram se é intrinsecamente criticável haver homens cientistas e mulheres que fazem lida doméstica).

A Porto Editora, agora acossada não apenas pelos especialistas na arruaça e desordem mas também pelo próprio governo, cedeu ao implícito pré-aviso de censura comercial (até um especialista em marcas e reputação de empresas apontou explícita e avisadamente que “uma situação mais grave seria se, por exemplo, os livros da editora deixassem de ser recomendados pelo Ministério da Educação”) e, certamente acautelando prejuízos futuros, fez uma sensibilizante semi-retratação pelo sucedido, jurando a pés juntos rever procedimentos e estudar todas as formas de não repetir o lapso, incluindo o indispensável contributo dos denunciantes.

Para acalmar ainda mais os ânimos, a editora foi a ponto de dizer que “também nós, na Porto Editora, nos identificamos com os valores da igualdade e da diversidade”, acrescentando que “estas publicações não refletem uma visão discriminatória e preconceituosa”. Bela e criteriosa escolha de palavras, acertando em cheio nos anseios dos proponentes de um novo mundo livre das amarras da tradição cristã (já lá vou…) e enchendo-os de regozijo pela apologia encapotada às, uso a expressão recorrente, “causas fraturantes”.

Isto, apenas um dia depois da editora dizer que os cadernos continuariam no mercado pois até estavam a ter boa procura pelo público.

Quanto à essência da questão, alguns comentários.

É evidente que está errado os exercícios para meninos serem mais complexos e difíceis do que os exercícios para as meninas – deveria ser rigorosamente ao contrário, pois as mulheres são geralmente mais inteligentes e sábias do que os homens. O que não sabemos é se, neste hipotético caso, haveria depois reclamações de que as exigências sobre as mulheres são propositadamente sobrecarregadas até ao limite do insuportável, uma estratégia que seria evidentemente considerada uma reação de dominância machista.

Contudo, não menos evidente é o facto de meninos e meninas, homens e mulheres serem diferentes, sempre terem sido e que sempre serão! Isso acontece fisicamente, mentalmente, em termos de funções, capacidades, habilidades, etc., um sem número de distinções que não os afasta, antes os complementa! Lançar-se em qualquer tentativa de contrariar isto é tentar destruir a própria humanidade, é perder a identidade daquilo que os homens e as mulheres são naturalmente.

Agora, imaginemos por um momento que os cadernos de exercícios para crianças incluíam ilustrações com famílias constituídas por dois pais ou duas mães (dada a impossibilidade natural, uso os termos apenas para exercício mental). Haveria a indignação generalizada? A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género iria publicar alguma nota a acusar a editora de acentuar estereótipos familiares que estão na base de destruição profunda do ordenamento familiar histórico e tradicional?

Não, não iria, e por uma simples razão: é que o objetivo final destes grupos ativistas e comissões governamentais é justamente o derrube (mais ou menos disfarçado) de toda a moralidade judaico-cristã e dos seus valores e princípios que são materializados na família e na sociedade e civilização ocidental em geral. São estes valores, que estabeleceram as mais prósperas e avançadas nações da História, que estão a ser séria e violentamente ameaçados por esta ideologia assassinadora de consciência própria e do livre arbítrio.

A este propósito, uma última nota: tão irritante quanto ver este ativismo antinatural é perceber o silêncio cobarde e medroso daqueles que se deveriam posicionar pelo que é correto, talvez por receio de oposição, ofensa gratuita ou até discriminação. Esta última, é uma linda palavra que, depois de capturada por assalto, é usada em regime de exclusividade e prerrogativa por quem se acha intelectualmente superior – sim, esses mesmos que criticam os exercícios mais fáceis para uns dos que para outros, são aqueles que advogam para si mesmos, seja tacitamente ou por decreto unilateral, um avançado estado de iluminação que escolhe e define o que é certo ou errado, para si e especialmente para os outros, neste caso por imposição.

A vaga secularista segue com toda a força e impune nas nossas escolas, meios de comunicação social, no fundo em tudo aquilo que nos rodeia e nos forma (ou formata). Isso também aconteceu na América, até que os que sofriam ou choravam em silêncio não viram outra alternativa senão eleger um imprevisível desarrazoado para a presidência do país. Talvez por aqui precisemos de uma pancada assim parecida para abrir de vez os olhos e perder a vergonha.

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