Os adventistas e as modas proféticas americanas

Creio que é inegável a constatação de que muito daquilo que o adventismo é pelo mundo fora, provém ou proveio dos Estados Unidos. No mínimo, podemos seguramente dizer que o adventismo nos EUA ainda molda bastante o adventismo no resto do mundo. Talvez este processo não seja tão forte como no passado, mas razões históricas e culturais mostram essa evidência.

No passado, a Igreja Adventista incorporava com muita facilidade a mentalidade imperialista americana e um pouco da sua visão global sobre o mundo. Por vezes isso entrava em choque com o nosso entendimento profético e, naturalmente, surgiam algumas fricções que a história tratava de esclarecer.

Um exemplo que certa vez me contaram: nas décadas de 1970 e 1980, muitos adventistas estavam profundamente preocupados com o comunismo e o conflito – ideológico, económico, social, cultural – que mantinha com o ocidente. Havia uma pressão latente: se o comunismo prevalece, como fica o nosso entendimento clássico e histórico de que os EUA serão o último grande poder político e militar da história da Terra?

Disseram-me que enquanto alguns se questionavam sobre essa questão, um pastor afirmou tranquilamente: “Tenhamos calma! A Bíblia diz que Roma e EUA serão os últimos grandes poderes em cena nos últimos episódios da história deste mundo. Portanto, de alguma forma o comunismo não irá prevalecer”. Este esclarecido raciocínio ficou provado a partir do dia 9 de novembro de 1989.

Um olhar atento pode constatar que hoje vivemos um fenómeno semelhante: uma vez quase desaparecido o comunismo, para quem olharam os EUA no sentido de encontrar um inimigo que pudessem combater e assumir como ameaça global na sua tentativa imperialista de dominar e conquistar o mundo? Não precisamos muito esforço para perceber que esse inimigo foi concretizado no islão e no chamado radicalismo e fundamentalismo islâmico, principalmente a partir de 11 de setembro de 2001.

É claro que o Adventismo não poderia ficar alheio a esta mudança de foco. Então, logo alguns eruditos e académicos adventistas, nomeadamente os que não tinham aprendido a lição anterior, foram em busca de uma explicação bíblia para o aparecimento desde novo poder opositor à nação americana. Mais concretamente, tentaram encontrar uma representação do islão no cenário profético em algo que pudesse ter impacto na geopolítica internacional.

A partir daí, surgiram algumas novas leituras e até mesmo alguns abusos interpretativos que colocaram em causa a correta visão bíblica sobre os poderes em causa no último grande conflito neste mundo. Um exemplo: a interpretação do rei do sul de Daniel 11:40 como sendo o islão, algo que nos colocou bem próximos dos dispensacionalistas. Muito perigoso.

Qual o problema essencial? Embora reconhecendo que não podemos assegurar-nos que já sabemos tudo sobre a profecia referente ao fim dos tempos, a verdade é que temos falhado num ponto: a profecia bíblica não deve ser analisada e escrutinada em função dos acontecimentos históricos; pelo contrário, os acontecimentos históricos é que são lidos no âmbito daquilo que a profecia bíblica anuncia!

Quer isto dizer que o islão não tem relevância profética alguma para o tempo em que vivemos? Não, não quer dizer isso! Nos últimos anos, o mundo ocidental tem estado em grande ansiedade e expetativa sobre questões como terrorismo de inspiração islâmica radical, e não podemos descartar que isso venha a influenciar grandemente importantes decisões políticas a nível mundial.

Contudo, o que não devemos em momento algum esquecer é algo que permanece muito claro: o papado romano e a nação americana (Apoc. 13) é que são os dois grandes poderes mundiais que atuarão de forma decisiva, crucial e mais relevante nas cenas que levarão ao final da história deste mundo! Outros poderes poderão surgir em cena; mas nenhum ocupará o destaque e proeminência destes dois.

Por que razão podemos afirmar isto? Porque a Bíblia o diz. O resto são cenas secundárias de um enredo maior.

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