Sim, o inferno existe

Alguns dias atrás, causou sensação uma declaração atribuída ao Papa Francisco, na qual o líder romano teria afirmado que “O inferno não existe. O que existe é o desaparecimento de almas pecadoras“. Este foi o relato que Eugenio Scalfari, um dos fundadores do jornal italiano La Repubblica, um amigo ateu de Francisco que já conversou com ele em duas ocasiões anteriores, transcreveu de uma suposta afirmação de Francisco.

O Vaticano apressou-se a esclarecer que o papa não fez essa afirmação, nem sequer concedeu alguma entrevista formal a Scalfari – apenas houve uma conversa informal cujo conteúdo foi inapropriadamente reproduzido pelo jornalista italiano. Ao que parece, não apenas Donald Trump mas também o Papa sofre o efeito das fake news (a diferença para o presidente americano é que rapidamente todos acreditaram na versão de Francisco).

Como normalmente acontece, muitas das opiniões manifestadas a propósito desta confusão foram baseadas apenas em títulos de notícias ou frases vagas. Convirá por isso perceber o contexto desta suposta afirmação de Francisco.

A questão de Scalfari e subsequente resposta do Papa que apareceram no artigo do La Repubblica foram:

“Sua Santidade, no nosso encontro anterior, disse-me que a nossa espécie em algum momento desaparecerá e Deus sempre criará outras espécies de Sua semente criativa, mas não me falou das almas que morreram em pecado e vão para o inferno para sempre. Falou-me por vezes das almas boas admitidas à contemplação de Deus; mas e as almas más? Onde são elas punidas?”

“Elas não são punidas. Aquelas que se arrependem recebem o perdão de Deus e vão para as fileiras das almas que O contemplam. Mas aquelas que não se arrependem e, portanto, não podem ser perdoadas, desaparecem. Não há inferno; há o desaparecimento das almas pecaminosas.”

Depois de publicada esta última frase, logo se estabeleceu interesse em torno da posição do Papa quanto à doutrina católica do inferno: os progressistas devem ter ficado entusiasmados na expectativa de mais uma rutura que Francisco estaria a fazer; por outro lado, os tradicionais ficaram certamente alarmados, para logo se tranquilizarem com o desmentido do Vaticano.

Há ainda um outro grupo: aqueles que estão atentos ao ofício do Papa Francisco e de imediato perceberam que algo não estava a bater certo, pois temos suficientes evidências para ter desde logo duvidado das declarações originalmente publicadas.

Na sua intervenção na Igreja de S. Gregório VII em Roma, no dia 21 de março de 2014, Francisco disse:

Convertam-se, ainda há tempo, para que não acabem no inferno. É isso que vos espera que continuardes nesse caminho.

Na sua mensagem da Quaresma em 2016, o papa declarou:

No entanto, o perigo sempre permanece de que por uma constante recusa em abrir as portas dos seus corações a Cristo, que chama por eles nos pobres, nos orgulhosos, ricos e poderosos, terminarão condenando-se a si mesmos e mergulhando no abismo eterno da solidão que é o Inferno.”

Na meditação matinal do dia 22 de novembro de 2016, o papa Francisco afirmou:

Estamos, portanto, diante de um real e verdadeiro chamado do Senhor para pensar seriamente sobre o fim: sobre o meu fim, o julgamento, sobre o meu julgamento”. A esse respeito, o Papa recordou como quando somos crianças frequentamos a “catequese” e aprendemos “quatro coisas: morte, julgamento, inferno ou glória”. Claro, alguns poderão dizer: “Padre, isso assusta-nos”. Porém, Francisco respondeu: “É a verdade…

Isto apenas confirma o que declara oficialmente o Catecismo Católico sobre este assunto:

“1035. A doutrina da Igreja afirma a existência do Inferno e a sua eternidade. As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente, após a morte, aos infernos, onde sofrem as penas do Inferno, «o fogo eterno» (632). A principal pena do inferno consiste na separação eterna de Deus, o único em Quem o homem pode ter a vida e a felicidade para que foi criado e a que aspira.”

Portanto, é de todo incredível que Francisco tenha produzido tal afirmação ao jornalista do La Reppbblica, de que o inferno não existe, pelo menos no sentido comum da afirmação.

Na realidade o inferno não existe conforme é normalmente entendido – um lugar a arder eternamente – mas existe, sim, como um evento, um acontecimento, único e temporário, no qual pecado e pecadores são definitivamente destruídos.

Isso é profetizado perto do final da Bíblia. O oráculo de João descreve da seguinte maneira:

“E subiram sobre a largura da terra, e cercaram o arraial dos santos e a cidade amada; e de Deus desceu fogo, do céu, e os devorou. E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre. E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras. E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo.” Apocalipse 20:9,10, 13-15

Aqui alguém poderá dizer: a Bíblia refere que esse inferno durará “para todo o sempre”. Pois bem, no penúltimo livro da Bíblia, Judas, temos uma expressão semelhante:

“Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.” Judas 1:7

Todos sabemos que Sodoma e Gomorra arderam lá no passado, mas não estão a arder hoje nem eternamente; como entender, então, estas expressões “para sempre” e “eterno“?

No contexto hebraico, “para sempre” ou “eternamente” não é necessariamente absoluto em termos temporais, nem indica necesariamente um periodo fixo de tempo; pode também significar “sempre até atingir o seu propósito” ou “até cumprir totalmente com a sua função”.

No Antigo Testamento, o profeta Isaías referiu-se de forma simbólica a este acontecimento exatamente nos mesmos termos:

“Porque será o dia da vingança do Senhor, ano de retribuições pela contenda de Sião. E os seus ribeiros se tornarão em pez, e o seu pó em enxofre, e a sua terra em pez ardente. Nem de noite nem de dia se apagará; para sempre a sua fumaça subirá; de geração em geração será assolada; pelos séculos dos séculos ninguém passará por ela.” Isaías 34:8-10.

Isaías refere-se literalmente à cidade de Edom, que também não continua a arder até hoje.

Podemos perceber este princípio também na história de Jonas:

“Eu desci até aos fundamentos dos montes; a terra me encerrou para sempre com os seus ferrolhos…” Jonas 2:6.

Este versículo refere-se ao tempo em que Jonas esteve dentro do peixe, onde, evidentemente, já não está hoje.

Encontramos outro exemplo na legislação mosaica:

“Então seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou ao umbral da porta, e seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre.” Êxodo 21:6.

Como é claro, o culpado seria servo sempre enquanto vivesse e não sempre para toda a eternidade.

Um último caso, no voto que Ana faz de entregar Samuel para o serviço no templo.

“Porém Ana não subiu; mas disse a seu marido: Quando o menino for desmamado, então o levarei, para que apareça perante o Senhor, e lá fique para sempre.” I Samuel 1:22.

Como sabemos, Samuel ficou lá enquanto viveu e não para sempre.

Portanto, o fogo eterno, o inferno que Apocalipse menciona, acontecerá no futuro, cumprirá a sua função de destruir pecado e pecadores, existirá enquanto cumpre a sua tarefa de destruição e, então, extinguir-se-á para não mais existir.

Para saber mais acerca do que a Bíblia diz sobre o inferno, consulte: Como se originou a crença no “inferno”?; Em que sentido o castigo dos ímpios será eterno?; Como interpretar a parábola do rico e Lázaro em Lucas 16:19-31?.

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