Alfie Evans e a mentalidade ditatorial e totalitarista

Passou quase despercebida de muitos meios de comunicação a curta história de Alfie Evans.

Resumindo: um bebé inglês sofre de uma doença neurodegenerativa misteriosa para a qual nenhum médico consegue encontrar solução a não ser mantê-lo vivo ligado a máquinas. Ao fim de vários meses, os médicos optam por desligar as máquinas e deixar a criança morrer. Os pais não se conformam e tentam providenciar que a criança seja tratada noutro local, no caso, num país diferente. Em resposta, os médicos proíbem os pais (!!!) de levar o bebé, sob a alegação de que, dada a condição em que ele se encontra, é preferível que a criança não viva mais.

Em meio a esta situação, o Vaticano ofereceu-se para que Alfie fosse admitido no Hospital Pediátrico Menino Jesus, em Roma. Os pais poderiam pagar os custos da deslocação até Itália. Paralelamente, o governo italiano chegou a conceder a cidadania italiana a Alfie, ameaçando as autoridades britânicas com uma acusação de homicídio caso as máquinas que mantinham Alfie vivo fossem desligadas.

Os pais entraram na justiça contra o hospital, reclamando o direito de serem eles, os pais, quem deveria decidir o que fazer ao bebé, principalmente porque os médicos tinham esgotado as suas soluções. Espantosamente, o tribunal decidiu que os pais não tinham esse direito, não poderiam levá-lo do hospital. Assim sendo, os médicos desligaram o ventilador. Alfie continuou a respirar, a viver e a lutar pela vida durante mais quatro dias, mesmo sem ter oxigénio ou água por várias horas. Na madrugada de 28 de abril, Alfie faleceu no hospital em Inglaterra, no lugar onde não quiserem cuidar mais dele, longe da Itália onde outros se dispunham a tentar mais um pouco.

Uma primeira lição desta história é que a mentalidade socialista/marxista prevalece hoje até nas mais altas esferas judiciais: os filhos pertencem ao estado e não aos pais ou às famílias (talvez a maioria das pessoas não o saiba, mas o mesmo princípio aplica-se às mulheres). Não são os progenitores quem escolhe e define o que é melhor para os seus filhos, a sua educação e até a sua vida enquanto pessoas dependentes; é o estado que reclama para si esse estatuto e prerrogativa (percebe agora por que razão os ideólogos de esquerda abominam escolas privadas e querem determinar em absoluto os currículos das escolas públicas?).

Outro ensinamento é que não vale a pena lutar pela vida: o estado é que decide arbitrariamente quem tem direito a viver e quem não tem. E mesmo que haja uma possibilidade, nem que seja uma réstia de esperança para fazer uma última tentativa, o estado, mais uma vez, acha-se no direito de decretar uma morte por omissão de tratamento.

Não por acaso, o professor Dominic Wilkinson, diretor de Ética Médica no Centro Oxford de Ética Prática da Universidade de Oxford, disse que “por vezes, o triste facto é que os pais não sabem o que é melhor para o seu filho”. Dito de outra forma, o estado, nem que seja uma pequena minoria que detém o poder, sabe sempre o que é melhor para os outros, mesmo que estes sejam uma maioria discordante – eis o marxismo social e político em todo o seu esplendor.

As semelhanças com a pena de morte são assustadoras: quando alguém é condenado à pena máxima, supomos que essa pessoa é culpada de um crime muito grave; a diferença é que certamente esse não será o caso de um pequeno bebé…

Ficamos também a saber que enquanto uma ou mais vidas destruídas por um atentado terrorista numa discoteca ou no meio de uma praça são merecedoras de grande consternação, manifestações públicas, intermináveis hashtags sociais, comunicados, intervenções e outras ações governamentais e vasto tempo de antena em jornais e televisões, a vida de um bebé indefeso mas não menos inocente não merece muito destaque – não me lembro de ter visto um único solidário #JeSuisAlfie, e nem vou comparar com o protagonismo reverente e cultual prestado àquelas galdérias profissionais da fação #MeToo que, sabe-se lá porquê, tiveram agora um súbito e inexplicável assomo de virgindade, castidade e recato.

Finalmente, e partindo do princípio que Alfie não teria muitas hipóteses em qualquer país para onde fosse, mostrou-se ser preferível garantir que ele não durava muito mais tempo, do que arriscar que a criança se tornasse um símbolo marcante da luta pela vida. Isso não faria muito favor aos ativistas do aborto e da eutanásia.

As implicações da morte de Alfie devem assustar todos os pais conscienciosos. Na prática, e por muito que as palavras pareçam violentas, o poder judicial impediu que um pai tentasse salvar o seu filho e insistiu em que a vida dele acabasse.

Diante disto, basta uma pergunta para ficarmos ainda mais aflitos: o que dizer de uma sociedade onde nem sequer os pais podem cuidar e proteger os seus filhos? E basta uma simples resposta para nos abrir os olhos: podemos dizer que isso não é uma democracia; é uma ditadura, um totalitarismo.

E ainda dizem que o mundo ocidental, civilizado e livre está imune a estes perigos. Não está; pelo contrário, de uma forma ou de outra, encaminha-se de novo para esse precipício. Pode não ser exatamente com os autores que toda a gente esperaria, mas os princípios estão mais estabelecidos do que poderemos pensar.

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