O Brexit, as eleições europeias e a democracia

As eleições europeias realizadas entre 23 e 26 de maio de 2019 acentuaram uma tendência que temos vindo a observar nos últimos anos, e não apenas na Europa: o crescimento, sustentado embora por vezes surpreendente, dos movimentos ligados à direita e extrema-direita. Especificamente, o contexto histórico destas eleições tornou-as ainda mais relevantes para o atento observador dos tempos em que vivemos.

Comecemos por fazer uma breve introdução para entender esse contexto.

O referendo à permanência do Reino Unido na União Europeia (UE), realizado em 23 de junho de 2016, manifestou a vontade do povo (principalmente inglês) em sair formalmente do bloco europeu, confirmando a profecia de Daniel 2:41-43, onde diz que apesar das imensas tentativas ao longo dos séculos, assim como ferro e barro podem estar juntos mas nunca unidos, também o velho continente jamais iria experimentar uma união real, estável e duradoura.

Por outro lado, esse resultado provocou um choque enorme entre as elites dominantes, os defensores e promotores do chamado “projeto europeu”, uma ótima designação para definir os propósitos de estabelecer uma verdadeira organização supranacional na Europa – em 60 anos, ainda não passou mesmo de mero(s) projeto(s), na maioria das vezes fracassado(s) ou incumprido(s), confirmando a profecia de Apocalipse 16:14, que refere haver união sim, mas entre os reis (governantes) da Terra.

Muito antes e durante a campanha para este referendo, desde sempre houve uma figura em destaque crescente: Nigel Farage, ex-líder do “UKIP” (Partido da Independência do Reino Unido), a mais forte voz batalhando pela saída do Reino Unido da UE. Farage chegou (legitimamente eleito) ao Parlamento Europeu há duas décadas, anunciando que a sua intenção naquele organismo seria fazer tudo para que o Reino Unido abandonasse a UE – na ocasião, todos se riram dele, um episódio recordado pelo próprio deputado, lá no Parlamento Europeu, no dia seguinte ao referendo em que o povo votou a favor da saída.

Ora, durante os últimos três anos assistimos aos governantes europeus desenvolverem todos os esforços para neutralizar o resultado do referendo democrático através da diplomacia. Ao nível do governo em Londres e do Parlamento Europeu em Bruxelas, foram tentadas várias possibilidades de acordo para a saída do Reino Unido, todas elas impossibilitadas pela falta de suficiente consenso. No fundo, os burocratas europeus tentaram que o Reino Unido saísse sem sair totalmente, com a criação de um documento que ainda mantivesse muitos dos laços entre as duas partes, uma tentativa desesperada de salvar o tal “projeto europeu” (é nítido para todos o grande risco de outros países poderem seguir o exemplo do Reino Unido, se consumado).

E eis que, chegados a 2019, ano de novas eleições para o Parlamento Europeu, nenhum acordo foi conseguido para a saída do Reino Unido; como tal, também neste país teve de haver eleições europeias, com uma particularidade espantosa: Nigel Farage foi de novo candidato – desiludido com a trajetória do “UKIP” após a sua saída de líder do partido, que considerou mesmo traidora para com o povo britânico, Farage organizou o seu próprio partido, chamado, nada mais, nada menos do que “The Brexit Party” (Partido do Brexit). Fundado apenas seis meses e registado três meses antes das eleições europeias, o novo partido de Farage foi o vencedor das eleições no Reino Unido, enquanto os dois grandes partidos das ilhas sofreram pesadas derrotas. Qual a mensagem do povo? Queremos que a nossa vontade seja respeitada. (E em breve haverá eleições para o governo britânico…)

Ao mesmo tempo, o também eurocético “Rassemblement National” (União Nacional), partido francês dirigido por Marine Le Pen (que recentemente falhou a presidência francesa apenas na última curva), manteve a sua votação como partido vencedor das eleições europeias em França (à frente do partido apoiado pelo presidente Macron). Em Itália, o “Lega Nord” (Liga Norte), partido do nacionalista eurocético Matteo Salvini, foi o vencedor. Na Polónia, venceu o “Prawo i Sprawiedliwość” (Lei e Justiça), um partido da direita nacionalista eurocética.

Temos assim que a Europa continua e continuará dividida: enquanto os não eleitos (já lá vou…) líderes do Parlamento Europeu se multiplicam em esforços para tentar garantir o verdadeiro federalismo europeu, os povos europeus têm vindo, nos últimos anos, a rejeitar sucessivamente essa proposta, favorecendo eleitoralmente pessoas e partidos que se manifestam contra o “projeto europeu”.

O que quero sugerir é que Deus está a usar o poder das nações (ainda) livres para fazer cumprir a Sua vontade, para servir como a Sua mão na condução da História profetizada – tem sido a determinação dos diferentes povos europeus que tem impedido a real e concreta união da Europa.

Portanto, fica bem evidente qual o verdadeiro e único problema que impediu e impede os líderes europeus de avançarem nas suas intenções: a democracia, as eleições livres e a vontade legítima dos povos. Não fosse isso, há muito que a Europa poderia ter uma configuração bem diferente.

Assim sendo, se o atual regime democrático puder ser revisto, ficará mais fácil a obtenção de uma nova ordem, diferente daquela escolhida pelas pessoas.

Alguns dirão que isso não é concebível no mundo ocidental. Será que não é? Se quiser olhar com cuidado, irá verificar que a União Europeia não é, repito: não é, uma democracia plena; quando muito, é uma semi-democracia.

Passo a explicar: numa democracia plena, o povo vota e escolhe por maioria os seus representantes e governantes – normalmente, o líder e candidato número 1 do partido mais votado torna-se presidente ou primeiro-ministro, e esse mesmo partido forma governo.

Contudo, não é isso que acontece na UE – as eleições para o parlamento europeu escolhem os deputados, os representantes do povo nesse organismo, mas não escolhem os governantes, os líderes da UE; estes são escolhidos a dedo por e entre aqueles que são eleitos ou que já detêm o poder.

Fica fácil perceber: se isto é admissível na UE, por que razão não o seria a nível nacional? E, para que tal aconteça, basta retirar o poder da mão do povo, se não todo, pelo menos o suficiente.

Concluindo, eu direi que para facilitar o processo todo, nada melhor do que surgir uma figura e uma proposta que seja consensual entre todos, governantes e povo comum. Faça o favor de calcular o resto.

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2 comentários em “O Brexit, as eleições europeias e a democracia

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