Lição 1 O CONFLITO CÓSMICO

Introdução

Milhões de pessoas vivem assustadas e temerosas com relação às espantosas cenas que acontecem no mundo: a incerteza motivada pelas guerras, situação social e económica ou até mesmo moral. No fundo, é a própria existência do mal que causa perplexidade e aflição em muitas pessoas.

O Grande Conflito, p. 492 “Para muitos espíritos, a origem do pecado e a razão de sua existência são causa de grande perplexidade. Veem a obra do mal, com seus terríveis resultados de miséria e desolação, e põem em dúvida como tudo isso possa existir sob o reinado de um Ser que é infinito em sabedoria, poder e amor. Eis um mistério, para o qual não encontram explicação. E, em sua incerteza e dúvida, tornam-se cegos para verdades plenamente reveladas na Palavra de Deus, e essenciais à salvação. Existem os que, em suas pesquisas concernentes à existência do pecado, se esforçam por esquadrinhar aquilo que Deus nunca revelou; por isso não encontram solução para suas dificuldades; e os que mostram tal disposição para a dúvida e astúcia, aproveitam-se disto como desculpa para rejeitar as palavras das Sagradas Escrituras. Outros, entretanto, deixam de ter uma compreensão satisfatória a respeito do grande problema do mal, devido a terem a tradição e a interpretação errónea obscurecido o ensino da Bíblia relativo ao caráter de Deus, à natureza de Seu governo, e aos princípios que regem Seu trato com o pecado.”

A origem do mal na Bíblia

A Bíblia explica de forma clara e suficiente a origem do mal e as razões pelas quais existe esse mal, dor e sofrimento neste mundo. Precisamos entender essa cosmovisão para enquadrar devidamente todas as dúvidas e questões.

Ezequiel 28:1, 2 “E veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: 2 Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro: Assim diz o Senhor DEUS: Porquanto o teu coração se elevou e disseste: Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no meio dos mares; e não passas de homem, e não és Deus, ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus.”

O mencionado príncipe de Tiro seria possivelmente Ithobaal III, que reinou entre 591 e 573 AC. A Bíblia regista este monarca como sábio (v. 3-5), rico comerciante (v. 4-5), orgulhoso (v. 2, 5) e atribuindo a si próprio um atributo de divindade (v. 2, 5, 6, 9). Esta arrogância seria punida por Deus com a sua destruição (v. 8).

A partir do verso 11 percebemos que existe um simbolismo evidente por detrás da descrição de Ithobaal:

Ezequiel 28:11-19 “Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: 12 Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor Deus: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. 13 Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardónia, topázio, diamante, turquesa, ônix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados. 14 Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas. 15 Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti. 16 Na multiplicação do teu comércio encheram o teu interior de violência, e pecaste; por isso te lancei, profanado, do monte de Deus, e te fiz perecer, ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas. 17 Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, para que olhem para ti. 18 Pela multidão das tuas iniquidades, pela injustiça do teu comércio profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu e te tornei em cinza sobre a terra, aos olhos de todos os que te vêem. 19 Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; em grande espanto te tornaste, e nunca mais subsistirá.”

Ithobaal não estava no Éden; não era querubim ungido – portanto, o texto está simbolicamente a referir-se a outro personagem.

A dimensão deste excerto não é terrena mas sim cósmica, descrevendo, sob metáfora, a origem do mal e o autor do mal: o inimigo de Deus, conhecido na Bíblia como Satanás. Esta é a descrição da origem do pecado.

Podemos perceber neste relato de Ezequiel 28 um esquema quiástico (uma figura de linguagem, falada ou escrita, em que certos elementos ou expressões são dispostos de forma cruzada formando um paralelo ou proporcionalidade entre si, que podem ser opostos):

1. Condição original de Lúcifer (v. 12, 13)
2. Era o querubim ungido para cobrir (v. 14)
3. Deus o estabeleceu (v. 14)
4. Estava no monte santo de Deus (v. 14)
5. No meio de pedras afogueadas (v. 14)
6. Era perfeito nos seus caminhos (v. 14)
6′. Foi encontrada iniquidade nele (v. 15)
5′. Foi lançado do meio das pedras preciosas (v. 16)
4′. Foi lançado do monte santo de Deus (v. 16)
3′. Deus o destruiu (v. 16)
2′. Era querubim cobridor (v. 16)
1′. Condição final de Lúcifer (v. 17-19)

Isaías 14:12-14 expande este simbolismo e as reais intenções de Lucifer:

“Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! 13 E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. 14 Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.”

Portanto, assim como Ithobaal se considerava a si mesmo um deus (Ezequiel 28:2), o profeta usa-o como tipo, símbolo da rebelião original de Lucifer contra Deus: ele também queria ser um deus.

O mal surgiu inexplicavelmente a partir de um ser criado perfeito que quis, aspirou, desejou ser como Deus. Como isto é uma impossibilidade e o rebelde não quis voltar atrás, a partir deste momento estabeleceu-se um conflito entre Deus e Lúcifer.

Não podendo, justamente, tolerar a revolta de Lúcifer, Deus teve de o expulsar das cortes celestiais:

Apocalipse 12:7-9 “E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; 8 Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. 9 E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele.”

O mal no planeta Terra

A Bíblia também ensina que esse conflito foi transportado para este mundo onde nós estamos. Génesis 3:15 estabelece as bases para a mundivisão que permite entendermos o que se passa no mundo onde vivemos.

“E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.”

Na sequência da queda moral de nossos primeiros pais, este versículo, que na verdade é uma declaração de guerra ou de conflito, apresenta os atores em ação nesse mesmo conflito: Deus (quem fala, “porei”); um inimigo de Deus (“ti”); o povo de Deus (“a mulher”); servos do inimigo de Deus (“tua semente”); e Cristo (“sua semente”, da mulher).

Isto relata o surgimento de um conflito aqui na Terra, envolvendo Deus, o Seu inimigo e os homens, dando-nos a perceção de que existe algo bem maior do que o próprio ser humano envolvido e a motivar a falta de paz e tranquilidade que todos desejariam.

O mal entrou no Universo devido a um ser que quis ser como Deus: “serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías 14:14).

E qual foi a razão a entrada do mal neste mundo?

Génesis 3:5-6 “… Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal. 6 E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.”

Em ambas as situações, colocar em causa a palavra, as ordens e a vontade de Deus levou à ruína, primeiramente Lúcifer, depois Adão e Eva.

Conselhos Para a Igreja, p. 322 “Quem tem a lei de Deus escrita no coração, obedecerá mais a Deus do que aos homens, e preferirá desobedecer a todos os homens a desviar-se um mínimo que seja dos mandamentos de Deus. O povo de Deus, ensinado pela inspiração da verdade, e guiado por uma consciência pura a viver segundo toda Palavra de Deus, terá a Sua lei, escrita no coração, como única autoridade que reconhece ou consente em obedecer. Supremas são a sabedoria e a autoridade da lei divina.”

O Desejado de Todas as Nações, p. 52 “Desde pequeno, começara Jesus a agir por Si na formação de Seu caráter, e nem mesmo o respeito e o amor aos pais O podiam desviar de obedecer à Palavra de Deus. “Está escrito”, era Sua razão para cada ato que destoasse dos costumes domésticos. A influência dos rabinos, porém, tornou-Lhe amarga a vida. Mesmo na mocidade teve que aprender a dura lição do silêncio e da paciência no sofrimento.”

O conflito ao longo do tempo

Ao longo da História, o desenvolvimento, aqui na Terra, do conflito entre Cristo e Satanás tem testemunhado cenas e episódios dramáticos e impressionantes, sendo que os maiores de todos aconteceram há cerca de dois mil anos quando Cristo esteve na Terra.

Durante quatro mil anos, Satanás tentou impedir a descendência a partir da qual surgiria o Messias prometido em Génesis 3:15.

a) Caim matou Abel (Génesis 4:8)
b) Corrupção da linhagem de Sete (Génesis 6:1-3)
c) Esaú planeou matar Jacó (Génesis 27:41)
d) Atalia tenta destruir toda a casa de Judá (II Crónicas 22:10)
e) Hamã tenta matar todos os judeus (Ester 3:6, 13)

Finalmente, Satanás tentou eliminar o próprio Messias:

f) Herodes manda matar todas as crianças com menos de dois anos (Mateus 2:16)
g) Os judeus tentaram matar Jesus (João 5:16, 18)

Sabemos que, nessa ocasião, ao morrer na cruz depois de viver uma vida perfeita, Cristo obteve a maior vitória de sempre sobre Satanás. Assim sendo, será que o inimigo de Deus desistiria do conflito, da luta?

Hebreus 11:33-37 “Os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, 34 Apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. 35 As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; 36 E outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. 37 Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados.” (Um relato das perseguições sofridas no Antigo Testamento, um tipo exato do que sucedeu após a passagem de Cristo pela Terra.)

Satanás atingiu o povo de Deus com as mais sevres perseguições. Embora a igreja tenha sofrido imenso, a verdade é que não foi derrubada.

O Grande Conflito, p. 41 “Nulos foram os esforços de Satanás para destruir pela violência a igreja de Cristo. O grande conflito em que os discípulos de Jesus rendiam a vida, não cessava quando estes fiéis porta-estandartes tombavam em seus postos. Com a derrota, venciam. Os obreiros de Deus eram mortos, mas a Sua obra ia avante com firmeza. O evangelho continuava a espalhar-se, e o número de seus aderentes a aumentar. Penetrou em regiões que eram inacessíveis, mesmo às águias romanas.”

Novamente, o inimigo de Deus não desistiu e durante séculos continuou os seus esforços para neutralizar o povo de Deus:

Apocalipse 12:17 “E o dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guerra ao remanescente da sua semente, os que guardam os mandamentos de Deus, e têm o testemunho de Jesus Cristo.”

Portanto, não tendo conseguido derrubar a Cristo, as atenções de Satanás voltaram-se para a igreja de Cristo, os Seus seguidores, tentando eliminá-los.

Uma das razões principais é que Satanás não gosta daqueles que fazem aquilo que ele não quis fazer: obedecer a Deus.

Os adventistas do sétimo dia entendem a lei (obediência) e o Evangelho (salvação) como sendo dois aspetos complementares.

O Desejado de Todas as Nações, p. 428 “Mesmo a lei moral falha em seu desígnio, a menos que seja entendida em sua relação para com o Salvador. Cristo mostrara repetidamente que a lei de Seu Pai encerrava alguma coisa mais profunda que simples dogmáticos mandamentos. Acha-se encarnado na lei o mesmo princípio revelado no evangelho. A lei indica o dever do homem e mostra-lhe sua culpa. A Cristo deve ele olhar, em busca de perdão e poder para cumprir o que a lei ordena.”

A marca identificativa do último povo de Deus é bem clara quanto a este conceito:

Apocalipse 14:12 “Aqui está a paciência dos santos; aqui estão os que guardam os mandamentos [obediência à lei] de Deus e a fé em Jesus [evangelho].”

Nota adicional: guardar os mandamentos é obediência, um resultado de receber o evangelho de salvação (que é um requisito) – isso é fidelidade; por outro lado, legalismo seria ser salvo porque guarda os mandamentos (que é impossível) – isso seria salvação pelas obras.

Promessas de Deus

No meio da luta, as palavras e as promessas de Deus são seguras. Um exemplo:

Hebreus 6:18 “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta…”

Josué 1:5 “Ninguém te [Josué] poderá resistir, todos os dias da tua vida. Como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei nem te desempararei.”

Josué 21:45 “Palavra alguma falhou de todas as boas coisas que o Senhor falou à casa de Israel; tudo se cumpriu.”

Conclusão

O grande conflito cósmico entre Cristo e Satanás começou no céu e foi transportado para a Terra. Todas a cenas que acontecem neste mundo são em função dessa luta que ainda existe e na qual todos, de alguma forma, continuam envolvidos. As boas novas do evangelho é que Cristo tem vencido todas as batalhas da guerra, incluindo e principalmente a morte expiatória na cruz do Calvário, que todas as pessoas podem beneficiar livremente.

Descarregue aqui as notas escritas: Lição 1 O Conflito Cósmico